FÓRUM > Vol. 4 , No. 1 ( 2011 ) - Mudanças climáticas e o impacto das cidades  
  ARTIGO -
Publicado em 24/11/2011

A INFLUÊNCIA DA VEGETAÇÃO E DA OCUPAÇÃO DO SOLO NO CLIMA URBANO: UM EXERCÍCIO ANALÍTICO SOBRE A AVENIDA PARALELA



Alves, Ana Christina Neves ; Andrade, Telma Côrtes Quadros de ; Nery, Jussana Maria Fahel Guimarães

RESUMO

O adensamento populacional e o crescimento espacial das grandes metrópoles são responsáveis pela supressão de grandes áreas com cobertura vegetal, afetando o clima local. A redução das áreas verdes está diretamente relacionada aos modelos de ocupação do solo urbano, que, muitas vezes, estão condicionados à disputa por maior aproveitamento do espaço construído. O presente artigo identifica e analisa as tipologias de ocupação do solo e a cobertura vegetal existente ao longo da Avenida Paralela, principal eixo de expansão da cidade de Salvador, Bahia. Cada uma das áreas identificadas e caracterizadas foi analisada tendo como critério a formação do fenômeno ilha de calor nas suas diversas intensidades. Como conclusão, levanta-se a hipótese de ocorrência de ilha de calor em algumas das áreas analisadas, tais como nas de tipologias adensadas, com alto grau de impermeabilização do solo.

ABSTRACT

The density of populationspatial growth of large cities are responsible for the removal of large green areas, affecting the local climate. The reduction of green areas is directly related to the land use models, which is often a matter of quarreling about the misuse of the built space. This paper identifiesanalyzes the land usethe existing green areas along the Avenida Paralela, the main axis of expansion of the city of Salvador, Bahia. Each areas was identifiedcharacterizedwas analyzed by the criterion of the formation of the heat island phenomenon in its various intensities. As a conclusion, we came to the point of the occurrence of heat island in some of the examined areas, due to the dense typologies, with a high degree of soil sealing.

PALAVRAS CHAVE: clima urbano, Áreas verdes, tipologias construtivas, ilha de calor

KEYWORDS: urban climate, green areas, land use, heat island



CLIMA URBANO

O conceito de clima diz respeito a um comportamento padrão dos elementos climáticos quantificáveis ao longo do período de um ano. Gerado a partir de fatores globais, tais como a latitude e a circulação atmosférica, segue sofrendo alterações nas diversas escalas devido às interações com os diversos fatores naturais ou geomorfológicos até chegar à escala do clima urbano.  Nesta escala, o clima é modificado por fatores antrópicos que, em última instância, referem-se à urbanização: supressão da vegetação com redução significativa das áreas verdes, alterações na topografia, amplas áreas pavimentadas, grande volume edificado, concentração de pessoas, veículos e atividades com alta demanda de energia e emissão de poluentes.
 
Esses fatores do clima urbano acarretam um sobreaquecimento das cidades, gerando  as características principais do clima urbano: as ilhas de calor e o dômus de poeira. A primeira denomina as áreas mais aquecidas que ocorrem nos locais mais adensados. Nesses locais, o ar mais aquecido gera uma corrente de convecção que carrega os contaminantes urbanos para as camadas superiores ao mesmo tempo em que succiona o ar da periferia, proporcionando uma circulação típica que ajuda a configurar a segunda característica, o dômus de poeira.
 
A intensidade desses fenômenos pode atingir diferenças significativas entre as áreas urbanas centrais e as áreas verdes livres, interferindo nas demais variáveis climáticas (LOMBARDO, 1985).
 

Segundo Santamouris (1996, p.46)

os campos apresentam grandes superfícies cobertas de vegetação, que possuem absorção solar elevada (aproximadamente 80%) e grande parte da radiação incidente nelas é utilizada para a evapotranspiração, resultando na redução da temperatura do ar e no aumento da umidade ao redor. Adicionalmente, parte da radiação solar absorvida pela terra é usada na evaporação da sua umidade, que mantém consequentemente temperaturas moderadas.

 De acordo com Akbari (1992) apud Santamouris (1996), a diferença de temperatura entre essas áreas varia num intervalo de 1° a 4,5° C.

 

O conceito de Clima Urbano revela uma distorção associada à perda da qualidade         ambiental que tanto resulta como repercute negativamente nos diversos setores da sociedade, incluindo a saúde e o bem-estar dos indivíduos. Nesse sentido, o fenômeno da ilha de calor é um sintoma de uma patologia urbana (por exemplo, adensamento de edificações, índices urbanísticos e sistema de transporte inadequado, dentre vários outros).  Considerando ainda as questões relativas às mudanças climáticas globais, os efeitos do clima urbano podem ser potencializados.

 

A INFLUÊNCIA DA VEGETACÃO NO CLIMA URBANO

 

As cidades são caracterizadas por áreas verdes[1]reduzidas e por amplas áreas edificadas. As edificações utilizam materiais de revestimento que, em sua maioria, têm baixa refletância solar e absorvem uma parcela elevada da radiação incidente. Uma parcela significativa desta radiação é armazenada em forma de calor e devolvida ao ambiente ao final do dia, contribuindo para o aumento da temperatura do ar e gerando ilhas de calor.
 
A vegetação utiliza a radiação solar no processo de fotossíntese, minimizando os efeitos das ilhas de calor sob diversos aspectos: absorção de parte da radiação solar, colaborando para diminuição da temperatura e da umidade relativa do ar, redução da poluição atmosférica e modificação da velocidade e direção dos ventos. Pesquisadores como Niemeyer, Malafaia e Santos (2006) afirmam que “[...] ocoeficiente de reflexão da vegetação pode variar entre 10 e 15%, bastante inferior ao do concreto que se situa entre 25% e 35% [...]”. Desta forma, a vegetaçãotende a estabilizar a temperatura e evitar que esta atinja valores extremos. Hertz (1998)registrou variações de 5 a 6°Centre áreas gramadas e pavimentadas, expostas diretamente à radiação solar.
 
Como defendem Mascaró, Mascaró e Aguiar (1990, p. 59-72), “a cobertura vegetal, além de ser uma estratégia simples e barata para conter os efeitos da ilha de calor, proporciona ao cidadão a oportunidade de reduzir os custos de refrigeração no seu ambiente urbano, principalmente nas regiões úmidas”. Além disso, a vegetação ajuda a evitar alagamentos e a filtrar o ar. Os tetos e paredes verdes têm sido amplamente difundidos como parte desta estratégia.
 
A vegetação também possui alto valor estético e está associada intrinsecamente ao lazer urbano. Ferramentas do planejamento urbano, como leis de uso e ocupação do solo e código de obras, podem auxiliar na elaboração de projetos urbanos que respeitem a diversidade e riqueza local com responsabilidade social, ambiental e econômica.
 
 
CLIMA URBANO EM SALVADOR
 
A cidade de Salvador, capital do estado da Bahia, com aproximadamente 3 milhões de habitantes (IBGE, 2008), tem uma condição peculiar, visto que ela se desenvolveu sobre uma península, ou seja, é circundada pelo oceano e pelas águas da Baía de Todos os Santos (BTS). Essa situação potencializa os efeitos da umidade do ar e da incidência dos ventos nas suas três bordas. Tais aspectos, que colaborariam para minimizar os efeitos do clima urbano dispersando as ilhas de calor, são descompensados pela ocupação do solo.
 
Historicamente, a cidade se desenvolveu a partir de determinados núcleos —  Cidade Alta, Cidade Baixa, Rio Vermelho, Itapuã, dentre outros. Recentemente, o crescimento ajudou a consolidar esse modelo policêntrico de ocupação, gerando diversos núcleos mais adensados, diferentemente do padrão concêntrico das grandes cidades não costeiras.
 
Pesquisas de clima urbano desenvolvidas pelo Laboratório de Conforto Ambiental da Universidade Federal da Bahia (UFBA) levantaram a hipótese da existência de ilhas de calor, ao invés de presença de uma única ilha central coincidente com o centro urbano (ANDRADE et al, 2003; 2004; 2005), (FE et al, 2007). Nessa configuração, o aumento da temperatura ocorre em diversas áreas da cidade, caracterizando o clima urbano de Salvador, cujos fatores estão relacionados principalmente com a ocupação extensiva de todo o seu território e, consequentemente, com a redução drástica da vegetação.
 
Comparando as temperaturas médias mensais das normais climatológicas dos períodos de 1931-1960 e 1961-1990 (Figura 1), valores obtidos do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET, 2009), já se observa o aumento das temperaturas do ar no período mais recente, que coincide com o adensamento da cidade. Em 2009, a temperatura máxima absoluta alcançou os 35,2° C, sendo este o maior valor já registrado pelo INMET.
 
As elevadas temperaturas registradas em março e abril de 2009 resultaram em uma inversão térmica que causou mal-estar à população, como relatado pela imprensa local. É necessário enfatizar que o aumento na temperatura média ou mesmo o valor máximo foram registrados na Estação Meteorológica de Ondina. Como a localização se encontra fora da influência das ilhas de calor da cidade, consequentemente, dentro da malha urbana o resultado pode ainda ser mais grave, com a temperatura alcançando valores ainda mais elevados.
 
 
NORMAIS CLIMATOLÓGICAS
 
Figura 1. Normais Climatológicas: Temperatura do ar, período 1931-1960 e 1961-1990. Fonte: INMET (2009).
 
 
Esse quadro se torna mais complexo quando, no presente momento, o ritmo da construção civil está acelerado, e a cidade possui 4.172 habitantes por km², densidade superior a de Bombaim, Índia. Seu déficit habitacional é de 100 mil habitações, das quais 80% são de famílias fora do mercado imobiliário (AZEVEDO, 2009).
 
 
UM EXERCÍCIO ANALÍTICO SOBRE A AVENIDA PARALELA
 
A Avenida Luis Viana Filho, popularmente conhecida como Avenida Paralela por ter sido construída paralelamente à via costeira, é o principal eixo de expansão urbana da cidade de Salvador, com 14 km de extensão. Foi concebida no início dos anos 70 para dar acesso ao Aeroporto e para atender à estratégia de impulsão de um novo vetor de crescimento de Salvador.
 
Reconhecida sua importância geográfica, estratégica, logística e ambiental para a cidade e impulsionada inicialmente na década de setenta pela implantação do Centro Administrativo da Bahia (CAB), tem-se observado, nas últimas décadas, uma crescente demanda pela ocupação dessa área. Atualmente, além do Parque Tecnológico da Bahia, exemplo de projeto com responsabilidade socioambiental, apresenta crescente inserção de universidades, grandes empresas, residências.
 
A Figura 2 apresenta as áreas consolidadas do município e seus respectivos vetores de expansão, evidenciando a pressão por ocupação na região da Paralela.
 
 
EXPANSÃO URBANA DE SALVADOR
 
 
 
Figura 2. Evolução dinâmica de Salvador: uso do solo e tendências de crescimento. Fonte: Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado da Bahia — SECTI. Relatório dos Estudos Físicos para o Parque Tecnológico da Salvador (2005).
 
 
O crescimento desordenado da cidade de Salvador nas últimas décadas causou a diminuição expressiva das reservas de área verde municipais, exceto em alguns poucos parques urbanos (Parque da Cidade, Parque de Pituaçu, Abaeté e São Bartolomeu), tornando a Avenida Paralela a última área significativa da cidade com grande concentração de vegetação.
 
O acelerado processo de urbanização corrente tem colocado em risco o patrimônio formado por remanescentes da Mata Atlântica. Ações de desmatamento com o intuito de viabilizar a implantação de loteamentos residenciais, centros de comércio, universidades, ocupações espontâneas, vias arteriais de acesso, entre outros, são cada vez mais constantes.
 
Esses empreendimentos, regulares ou informais, ao passo que substituem a cobertura vegetal, acarretam problemas de macrodrenagem, devido ao aumento da impermeabilização do solo, além de afetar o curso natural das águas, degradando as bacias.
 
Um exemplo relevante de degradação ambiental nas bacias da Paralela ocorre na Bacia de Jaguaribe. Importante manancial aquífero seccionado pela via expressa em questão, vem sofrendo com a diminuição de áreas permeáveis dentro de seus limites. Estudos realizados nessa região têm apontado tais problemas. Ruy Abreu (1998), na dissertação Qualidade e Gestão Ambiental da Bacia do Jaguaribe-BA, enfatiza:
 

A supressão da vegetação nativa nas áreas de urbanização da Bacia Jaguaribe não foi compensada por um programa de arborização das vias públicas e praças, mesmo nas áreas de ocupação planejada, como conjuntos habitacionais, loteamentos e distrito industrial. Tal fato promove nos dias quentes, sobretudo no verão, um desconforto térmico muito grande. A ‘supremacia do concreto’ nesses locais desconsidera a estética paisagística, depreciando as condições de habitabilidade local. Mesmo os espaços destinados às praças públicas, em sua maioria, estão desprovidos de árvores quando não se encontram em precário estado vegetativo (ABREU, 1998).

 
 
Fazendo uma análise em toda extensão da Avenida Paralela, percebemos que o problema que aflige a bacia do Jaguaribe se repete em outras áreas contíguas. A ortofoto (Figura 3) permite a visualização da cobertura vegetal da Avenida Paralela em 2002.
 
 
ORTOFOTO DA AVENIDA PARALELA
 
 
 
 
Figura 3. Ortofoto da Avenida Paralela (2002). Fonte: Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia (CONDER).
 
 
Inicialmente este trabalho consistiu na identificação da região de estudo, delimitando uma área da Avenida Paralela correspondente ao trecho de maior representatividade da vegetação de Mata Atlântica entre os bairros de Narandiba e Imbuí, a sudoeste, e os bairros da Paz e Mussurunga, a nordeste da via expressa. Dentro desse recorte urbano, foram demarcadas cinco áreas representadas na ortofoto (Figura 3) e algumas zonas de características tipológicas homogêneas (Figura 4).
 
No que se refere à ocupação do solo, a Avenida Paralela é caracterizada por ocupações tipologicamente diversificadas, agrupadas em zonas homogêneas. Podem-se  analisar, de forma empírica e baseada na literatura, as relações entre as características tipológicas de cada uma das zonas homogêneas e o clima local que esses ambientes urbanos oferecem.
 
 
ZONEAMENTO TIPOLOGICO DA AVENIDA PARALELA
 
 
 
 
 
Figura 4 — Zoneamento Tipológico da Avenida Paralela. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado da Bahia — SECTI. Relatório dos Estudos Físicos para o Parque Tecnológico da Salvador (2005).
 
 
Cada uma das áreas identificadas e caracterizadas foi analisada de acordo com os critérios apresentados em Moura e outros (2006), os quais se referem às diferentes intensidades do fenômeno ilha de calor: ilha de calor máximo, ilha de calor e ilha de calor reduzida. 
 
ÁREA 01 - O Centro Administrativo da Bahia — CAB. Representa um modelo de ocupação com número reduzido de edificações em relação às áreas livres e verdes. As edificações do CAB possuem gabarito médio de cinco pavimentos. Pela relação entre o gabarito e suas plantas extensas, as edificações ostentam aparência monumental e horizontalizada, característica da Tipologia 1 (Figura 4). O relevo acidentado, com cotas variando entre 30 e 70m, privilegiou sua ocupação nos platôs em detrimento das encostas.  A vegetação encontrada é predominantemente rasteira, em substituição à vegetação original, mais densa e composta de árvores de médio porte.
 
ÁREA 02 - Bairro de Mussurunga. Esta é uma ocupação originalmente planejada nas áreas de relevo plano, formada por conjuntos habitacionais para a população de baixa renda e envolvida posteriormente por ocupações informais, compondo a Tipologia 2 (Figura 4). As edificações de baixos gabaritos guardam pequenos recuos entre si, caracterizando espaços densos e com alto índice de impermeabilidade dos solos. O relevo é acidentado, com cotas de nível variando entre 5 e 40m. Neste trecho se encontram remanescentes da Mata Atlântica, com vegetação densa, árvores de médio porte e grande diversidade de espécies, além da presença de lagoas.
 
Nessa área está sendo implantado o Parque Tecnológico da Bahia, espaço urbano destinado a abrigar empresas inovadoras em interação com universidades e institutos de pesquisa. Trata-se de um projeto de alto padrão urbanístico em que se buscou tirar partido dos desníveis do terreno, com cotas variando entre 5 e 40m, e resquícios da Mata Atlântica. O sistema viário e a ocupação dos lotes se concentrarão nas cumeadas, ou cotas altas, com o intuito de preservar a vegetação das seiadas, e nas cotas baixas, de maior valor biótico. Esse partido urbanístico visa também  potencializar o acondicionamento climático das edificações por meio do incentivo à ventilação natural. Outros recursos urbanos serão utilizados a fim de minimizar os efeitos do clima quente e úmido local, tais como: uso de piso intertravado nas vias de acesso; preservação da vegetação nativa nos fundos dos lotes; interligação das áreas verdes, criando corredores ecológicos, áreas destinadas à unidade de conservação —  Parque Ambiental, lotes fora do limite das Áreas de Proteção Permanente (APP) — lagoas e terrenos com declividade maior que 40%, dentre outros.
 
ÁREA 03 - Bairro da Paz. A ocupação originada na informalidade - Invasão das Malvinas nos primórdios da década de oitenta (FUNDAÇÃO GREGÓRIO DE MATTOS, 2009) - determinou a deficiência nos sistemas de infraestrutura urbana e a falta de cobertura vegetal. A predominância de residências de baixos gabaritos com, no máximo, 3 pavimentos, e a ausência de recuos entre as edificações tornam a área densa, caracterizando a Tipologia 5 (Figura 4). O relevo acidentado, com cotas variando entre 3 e 50m, não limitou o crescente número de assentamentos nas encostas, levando à ausência de  áreas verdes no local.  
 
ÁREA 04 - Patamares e Canabrava. Esta área da Avenida Paralela apresenta uma situação típica da desigualdade social onde, de um lado, localizam-se residências de alto luxo, como o loteamento Alphaville e condomínios residenciais verticalizados, e, do outro, o Bairro de Canabrava, com área que concentra população de baixa renda. Neste bairro, a ocupação é informal de origem irregular. Devido ao tamanho reduzido dos terrenos, não existem jardins e as casas são praticamente coladas umas nas outras, compondo a Tipologia 2 (Figura 4). O relevo, bastante acidentado, com cotas variando de 6,6 a 65,0m, direcionou a ocupação mais densa nos platôs e, posteriormente, mais escassa nas encostas. A vegetação, bastante suprimida, ainda pode ser encontrada nas cotas mais baixas, ainda que em pontos antropizados.
 
Na margem oposta, nota-se crescente inserção de condomínios residenciais e comerciais verticalizados de alto padrão construtivo. O loteamento Alphaville, com casas e edifícios residenciais de luxo, assim como os demais empreendimentos circunvizinhos, apresenta ocupação planejada e regular de Tipologia 4 (Figura 4). Grande parte dessa área teve a vegetação nativa suprimida no momento da sua implantação. O relevo, com cotas de 5,0 a 48,5m, contribuiu para a preservação de parte da vegetação nas encostas e vales. A urbanização, apesar de valorizar a presença de jardins e lagoas, utiliza revestimentos tradicionais, como asfalto, na vias de acesso local.
 
ÁREA 05 - Parque de Pituaçu (Figura 5). É uma das maiores reservas de área verde municipal, com relevo com cotas 3,5 e 44,5m. Seu valor ecossistêmico é inquestionável, apresentando grande variedade de espécies vegetais e animais. Além disso, a concentração vegetal somada à proximidade de lagoas torna lugar aprazível para o lazer.
 
 
VISTA AÉREA DO PARQUE DE PITUAÇU
 
 
 
 
Figura 5 — Vista aérea do Parque de Pituaçu. Fonte: Manu Dias (2006).
 
ÁREA 06 - Imbuí. Outra área com tipologia significativa, a Tipologia 3 (Figura 4), não representada na ortofoto, corresponde ao início da Avenida Paralela, cuja concentração linear de uso múltiplo é característica de empreendimentos habitacionais, comerciais, institucionais e de serviços, com grandes áreas impermeáveis. De um lado, encontram-se os Bairros Cabula VI e o Saboeiro, com Tipologias mistas 2 e 3, e do outro, o Bairro do Imbuí, com edificações mais verticalizadas, com recuos maiores e com áreas verdes pontuais de Tipologia 3.
 
 
DISCUSSÃO
 
Após a caracterização das tipologias de ocupação do solo e da cobertura vegetal existente ao longo da Avenida Paralela, são analisadas as consequências climáticas nas cinco áreas delimitadas, tendo por referência Moura e outros (2006) .
 
ÁREA 01 - Centro Administrativo da Bahia — CAB. Esta área pode ser considerada na categoria não sujeita ao fenômeno ilha de calor reduzida devido à baixa densidade de ocupação, extensa área verde e cotas mais elevadas que a adjacência.
 
ÁREA 02 - Bairro de Mussurunga. Esta área comporta a presença de microclimas distintos, onde, por um lado, a abundante cobertura vegetal, a presença de lagoas e o relevo acidentado, com cotas de nível variando entre 5 e 40m, contribuem para a amenidade do lugar, evitando a ocorrência da ilha de calor. Por outro lado, nas áreas com ocupação formal e informal, as edificações de baixos gabaritos, guardando pequenos recuos entre si, resultam em espaços densos e com alto índice de impermeabilidade dos solos, agravando as distorções microclimáticas. Essas áreas estariam na categoria de ilha de calor ou ilha de calor reduzida.
 
ÁREA 03 - Bairro da Paz. Esta área tem uma ocupação mais homogênea. A predominância de residências de baixos gabaritos, a impermeabilidade dos solose a ausência de recuos entre as edificações tornam a área densa e impedem a circulação dos ventos, implicando a categoria de ilhas de calor ou ilha de calor reduzida. 
 
ÁREA 04 - Patamares e Canabrava. Esta área também possui tipologias distintas de ocupação. No caso de Alphaville, mesmo com a preservação de algumas áreas de mata nativa, a presença de inúmeras construções —  incluindo condomínios verticais e pavimentação asfáltica — já implica alguma perda da amenidade. Essa área pode ser considerada como ilha de calor reduzida. A área que compreende o bairro de Canabrava, devido às características da ocupação informal semelhante às das áreas anteriores, fica na categoria de ilha de calor ou ilha de calor reduzida.    
 
ÁREA 05 - Parque de Pituaçu. Nesta reserva de área verde municipal, a concentração vegetal somada à proximidade de lagoas torna o lugar aprazível para o lazer, sem predisposição para a ocorrência de ilha de calor.
 
ÁREA 06 - Imbuí. Aqui a tendência é o surgimento de ilha de calor máximo devido à  verticalização das construções, à  impermeabilização do solo e ao intenso comércio. A cobertura vegetal é escassa, embora contígua à reserva do XXI Batalhão do Exército Brasileiro. Entre os aspectos positivos dessa área incluem-se a ventilação decorrente de sua proximidade ao mar e a possibilidade de os ventos circularem entre as edificações. Nas atuais condições, pode-se ainda considerar essa área na categoria ilha de calor.
 
No trabalho sobre o clima urbano em Salvador (MOURA, 2006), realizado na escala da cidade e, portanto, sem a aproximação cartográfica apresentada aqui, no trecho analisado da Avenida Paralela, não foram identificadas ilhas de calor. Porém, no interregno de ambos os trabalhos, a ocupação acelerada da cidade, tendo como forte vetor de crescimento a Avenida Paralela, e com tipologias construtivas indutoras da formação de ilhas de calor, alterando a configuração dos padrões de clima urbano, levanta-se a hipótese de ocorrência de ilha de calor em algumas das áreas analisadas, tais como nas de tipologias adensadas, com alto grau de impermeabilização do solo. 
 
 
CONSIDERAÇÕES FINAIS
 
Este artigo indaga sobre o presente e o quase futuro da ocupação do solo da cidade de Salvador, tendo em vista que o seu território, geograficamente limitado, está praticamente ocupado, com a área da cidade coincidindo com a área do município e que, de modo extensivo, as diversas tipologias construtivas utilizadas têm em comum a redução significativa ou eliminação da cobertura vegetal. Esse fato ocorre em meio a mudanças climáticas globais, em que a comunidade internacional, por meio de centenas fóruns, tem conclamado a preservação da natureza em todos os ecossistemas, inclusive os urbanos.
 
Para que esse modelo seja superado, é necessário, além da criação de ferramentas de controle e adaptação de instrumentos de planejamento, levando em consideração as variáveis climáticas, exercer controle mais rígido sobre o processo de ocupação da área da Avenida Paralela. A inobservância dessas considerações pode levar à eliminação das últimas reservas verdes do município e à obstrução da ventilação natural, comprometendo o clima da cidade, com a formação de ilhas de calor.
 
 
REFERÊNCIAS
 
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[1]  Áreas verdes compreendem os espaços onde há o predomínio de cobertura vegetal, incluindo praças, jardins públicos e parques urbanos. A vegetação dos canteiros centrais de avenidas e dos trevos e rotatórias de vias públicas contribui para o melhoramento das funções estéticas e ecológicas e é, também, considerada como área verde.