A FUNCIONALIDADE NOS PROCESSOS DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL COMO AGENTE EFETIVO DE TRANSFORMAÇÃO E INCLUSÃO SOCIAL DO CIDADÃO

RITA DE CASSIA ALMEIDA COSTA

Resumo


Desde que chegou ao Brasil, a Educação Patrimonial foi palco de discussões geradoras de várias vertentes de pensamento e, hoje, transitando em diversas áreas, abraçando a transversalidade e a interdisciplinaridade, necessita de que cada uma dessas facetas seja visitada, a fim de que os responsáveis pelas escolhas metodológicas não se fixem em um dos seus nichos como verdade absoluta. Atualmente, é possível confundir as propostas de Educação Patrimonial, Ambiental, extramuros ou informal. Necessário acrescentar que as denominações não são tão fundamentais. Basais são os meios pelos quais se converterá a inércia humana em movimentos de cidadania. Este trabalho propõe reflexões e mostra um prisma funcional para execução da Educação para Patrimônio. Inicialmente são questões sobre posicionamentos pessoais e/ou institucionais. As possibilidades apresentadas como interrogações buscam trazer clareza quanto às opções em relação à matéria, além de possíveis revisões quanto às motivações ou proposições para realização de qualquer projeto. Esse conjunto de perguntas foi discutido na II Semana Fluminense do Patrimônio, promovida pelo IPHAN-RJ, em Vassouras, constituindo-se como primeiro passo de um plano de ação com vias ao sucesso: o diagnóstico. Ele é valioso para garantir um resultado aceitável, principalmente porque tratamos de humanidade - erros podem ser irreparáveis. A análise não se fixa nas ações em si, contempla as raízes dos profissionais, porque ao longo do processo eles devem deixar “pegadas de sujeito”, como agentes liberadores de seres reagentes. Neste projeto, após o diagnóstico, decidiu-se por realizar exercícios coletivos mais amplos: que não acontecesse só entre produtores rurais e técnicos da EMATER/Rio e que não fosse, na sua essência, apenas escolar.  Ao optar por um trabalho de dinâmica comunitária, com diversos atores distantes socialmente, teria que se definir, com cautela, um ambiente capaz de receber esta empreitada pioneira, porque as mediações produzem marcas ou deixam cicatrizes. Não são neutras. Trajano de Moraes, município da região serrana do Estado do Rio de Janeiro, foi o abrigo para o projeto experimental, porque teve por substrato a crença de que lá estariam disponíveis algumas situações adversas ao sentido de uma identidade fortalecida, à vivência de mobilização social efetiva e à autoestima coletiva elevada. Estes itens poderiam fornecer parâmetros interessantes na aplicação da metodologia. Em contrapartida, sabia-se de um ativo humano potencialmente poderoso, que também traria uma grande contribuição ao processo. Concluída esta parte, são mencionados alguns dos teóricos - parceiros intelectuais - e as adequações realizadas para iniciar o Monitoramento Participativo de Qualidade da Água dos Corpos Hídricos Fluminenses, por demanda do Programa Rio Rural, desenvolvido pela Secretaria de Estado de Agricultura e Pecuária, em parceria com o BIRD. Na fase de sensibilização, primeiramente, o Escritório Local da Emater-Rio foi ouvido. Adequadas às contribuições, o encontro posterior se deu com as secretarias municipais de Educação, Defesa Civil e Ambiente. Só depois outros setores se apresentaram. Considerando os vários assuntos relacionados - desenvolvimento social, ambiente, sustentabilidade no meio rural, reconhecimento do valor das atividades agrícolas pelo meio urbano, importância da água na saúde pública, patrimônio natural e cultural - material e imaterial - a estratégia que se julgou mais adequada foi o estabelecimento de um processo de educação patrimonial funcional. Sendo assim, cidadãos do meio rural e urbano participam do Projeto Experimental, denominado Rio Macabu em ação: história, conhecimento e vida, em trocas de experiências que vão desde o primeiro ciclo do ensino fundamental de 9 escolas públicas municipais e estaduais até idosos que fizeram parte da construção da represa do Lago Artificial do Rio Macabu, no final da década de 1930.  As coletas/análises da água do Rio Macabu, em 11 pontos - desde sua nascente até a saída do município - são o elo entre os diversos grupos de interesse e as memórias disponíveis. Essas visitas de campo, de caráter inter-relacional, agenciam a transformação e a inclusão social dos participantes nas comunidades onde estão fixados. Para contextualizar a água, analisada fisicoquimicamente, existem mais duas áreas de conhecimento: geografia e história. Quadrimestralmente, o intercâmbio de informações fortalece o processo de execução, aumentando progressivamente o número de pessoas comprometidas diretamente. O projeto tem uma página no Facebook, esteve na Feira de Ciências do CE Maria Marina, elaborou uma proposta para o Comitê de Bacia dos Rios Macaé e Ostras, amparando o pedido de transposição do rio Macabu para o São Pedro e, ainda, recebeu pesquisadores da Universidade de Colônia/Alemanha. A funcionalidade do processo se consolida pela entrega dos resultados obtidos - em planilhas e gráficos - aos representantes dos Cogems - Comitês Gestores das Microbacias participantes - a fim de que produtores rurais, junto aos técnicos da Emater/Rio, entendam e corrijam a forma de uso do solo, com vias a melhoraria da água, preservação do rio e da paisagem cultural local de degradações pontuais ou difusas.


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