CIDADE / PRESERVAÇÃO / ALEGORIA - Três discursos + uma curta reflexão

SIMONE BORGES CAMARGO DE OLIVEIRA, JOSÉ ARTUR D’ ALÓ FROTA

Resumo


A reflexão sobre a cidade e seus monumentos, memória e preservação do patrimônio histórico e cultural é objeto frequente de indagações sobre as seguintes questões: o que é patrimônio, monumento histórico e conservação; práticas patrimoniais; o que preservar e suas motivações. Tal reflexão implica problematizar: a modernidade, seus fundamentos e rupturas do homem moderno com a tradição; o esgotamento do movimento moderno e sua articulação com a contemporaneidade. Estudos de Aloïs Riegl, em O culto moderno dos monumentos: sua essência e sua gênese, e de Françoise Choay, em A alegoria do patrimônio, assim como as reflexões de Otília Arantes, em A cidade do pensamento único, são balizas fundamentais para o entendimento das várias faces da preservação patrimonial, porque exploram o modo como a modernidade encaminha a solução do problema acerca da preservação do lugar. Este artigo busca os contornos que desenham o significado dessa solução para o homem moderno, evidenciando os fatores que determinam o modo como esses monumentos e obras arquitetônicas tornam-se, no final do século XX e neste começo de século, objetos de motivações para preservação e conservação. Tais fatores são estratégicos na promoção de cidades e são alavancados por grandes corporações transnacionais, que realizam projetos de cunho público, mas de ganho privado, e espetacularizam a cidade para grandes percursos turístico-culturais. A nossa hipótese é que a destruição ou conservação do patrimônio, o reconhecimento ou a ausência de reconhecimento patrimonial da arquitetura são fenômenos que dependem de ações e práticas socioculturais, que, em grande parte, são engendradas por procedimentos econômicos do capital moderno e contemporâneo, por meio da “fabricação” de tradições e rupturas. E o resultado, dentre outros, é a crise do sentido da preservação do lugar. Dessa formulação emerge a noção de monumento histórico e sua representatividade como lugar, enunciando as atuais práticas de utilização do patrimônio, em que o lugar edificado e seus conceitos arquitetônicos de valor histórico e valor de antiguidade, enraizados no passado, transformam-se em mercadoria no presente. Tal fenômeno ocorre com a própria cidade, que, para ter valor econômico e ser vendida como mercadoria, passa a ser capturada e compreendida como imagem. Pelo seu valor universal, os lugares reconhecidos como patrimônio mundial cultural tornam-se objetos cultural-econômicos. E assim sua conservação e valorização resultam numa obrigação da sociedade global de considerar sua identidade genérica de lugar, legitimando o sistema de cooperação financeira internacional para sua preservação. Fortalece-se, desse modo, um mercado cultural, explorado para fins financeiros, com a justificativa do turismo cultural para todos, como um “reencontro glamouroso entre a cultura (urbana ou não) e o capital”. Por um lado esta problematização – seu conceito, identificação e reconhecimento, conservação, destruição e possibilidades de intervenção – traz a necessidade de criar os nexos entre a arquitetura, o urbano e práticas socioculturais. Por outro lado, se estende para a reflexão sobre o sentido da história para o homem moderno, ganhando os contornos de uma crise a partir do momento em que o passado se torna um problema produzido pela ruptura estabelecida entre o projeto moderno e a tradição. Suscita, assim, uma interrogação sobre as motivações para preservação da memória das cidades e de seus monumentos. A dimensão simbólica constitutiva da função antropológica dos monumentos passa a não ser mais reveladora no sentido de compreender os vínculos firmados pelo homem com o lugar, como expressão do mundo e do seu reconhecimento. Isso porque, ao serem determinados por intermediários que prescrevem o que é o valor cultural, o que é monumento e patrimônio histórico, esses monumentos já estariam desprovidos de sua essência e significado.


Referências


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ARANTES, Otília. Uma estratégia fatal: a cultura nas novas gestões urbanas. In: ARANTES, Otília; VAINER, Carlos; MARICATO, Ermínia. A cidade do pensamento único: desmanchando consensos. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2000.

BRANDÃO, Carlos Antônio Leite. A arquitetura entre o renascimento do moderno e o luto da modernidade. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 3., 1999, São Paulo. Anais... São Paulo, dez. 1999. Disponível em: < http://www.docomomo.org, .br/seminario%203%20pdfs/subtema_A1F/Carlos_brandao.pdf >. Acesso em: maio 2016.

CHOAY, Françoise. A alegoria do patrimônio. Tradução: Luciano Vieira Machado. São Paulo: Estação Liberdade; Ed. Unesp, 2001.

HEIDEGGER, Martin. La época de la imagen del mundo. In: ______. Sendas perdidas. Buenos Aires: Losada, 1960.

RIEGL, Aloïs. O culto moderno dos monumentos: sua essência e sua gênese. Tradução: Elaine Ribeiro Peixoto; Albertina Vicentini. Goiânia: Ed. UCG, 2006.

UNESCO. Com o Rio, Brasil passa a ter 19 sítios na Lista do Patrimônio Mundial da Unesco. 2012. Disponível em:. Acesso em: maio 2015.


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