A PAISAGEM CULTURAL DO ALTO RIO SÃO FRANCISCO: Tentativa de delimitação

Caroline CÉSARI, Danielle Barroso CALDEIRA, Leonardo Barci CASTRIOTA

Resumo


A paisagem cultural é um conceito que vem sendo utilizado pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) para fins de preservação do patrimônio cultural mundial em porções territoriais, de caráter excepcional, às quais se aliam bens materiais e imateriais representativos das interações entre o homem e o meio em que vive. No Brasil introduziu-se em 2009 a Chancela da Paisagem Cultural Brasileira, através da Portaria 127 do IPHAN, para preservar porções territoriais singulares do país, atentando-se para os símbolos afetivos e as práticas culturais tradicionais aliadas a esses territórios e desenvolvidas através das gerações. Ainda como um instrumento experimental, esse instrumento, ao incorporar o conceito de paisagem cultural, dinâmico e polissêmico, onde natureza e cultura se interpenetram de modo complementar e indissociável, tem-se mostrado de difícil aplicação nas políticas de preservação brasileiras. No âmbito do IPHAN e das políticas para o patrimônio nacional, as dicotomias entre patrimônio natural e cultural e entre bens materiais e imateriais criam entraves nos processos de registro ou tombamento que abarquem quaisquer dessas categorias em conjunto. Para se analisar as potencialidades dessa categoria, tomaremos como exemplo a paisagem cultural do alto do Rio São Francisco, conhecido como o Rio da Integração Nacional, que poderia, a nosso ver, ser entendida como uma paisagem cultural brasileira, tendo em vista a singular relação que ali se estabelece entre seus atributos culturais e ambientais. Como recorte territorial será trabalhado a cabeceira do Rio São Francisco, região ocupada pelo Parque Nacional da Serra da Canastra, em Minas Gerais, que já foi objeto do INRC, junto com as demais porções do rio, que atravessa cinco estados brasileiros (Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas). A região da Serra da Canastra localiza-se no sudoeste de Minas Gerais e tem na agropecuária uma das suas principais fontes de riqueza. A diversidade cultural local também pode ser destacada, com a presença de festejos tradicionais como folias de reis e congados, além dos saberes aliados a importantes bens imateriais mineiros como o modo de fazer o Queijo Canastra, registrado pelo IPHAN em 2006. Registra-se ali ainda a presença de outros ofícios tradicionais, tais como os modos de construção envolvendo o uso de pedras, que servem como base das edificações e estão presentes em muitos muros e marcos paisagísticos dos municípios no entorno da Serra, em especial em São Roque de Minas, onde se encontra a entrada do parque nacional. O projeto Mestres Artífices de Minas Gerais - Rio São Francisco, realizado pela Universidade Federal de Minas Gerais com recursos da FAPEMIG, inventariou importantes mestres artífices no município de São Roque, especializados na feitura de muros  e intervenções paisagísticas, que utilizam como matéria-prima a chamada “pedra da Serra”, que se constitui numa característica peculiar dos municípios da região. Assim, numa tentativa de delimitação, esse trabalho propõe-se a analisar a Serra da Canastra na perspectiva do conceito de paisagem cultural, com seus bens materiais e imateriais associados, por sua beleza natural e sua riqueza cultural peculiar, dando-se atenção especial aos mestres artífices locais e aos saberes a eles associados, especialmente aqueles relacionados ao uso de pedras para a construção civil, ofício tradicional e característico da região do Alto São Francisco.


Referências


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