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       FÓRUM | Patrimônio Cultural, Identidade e Turismo - Vol. 3, Nº. 1 (2010)  
 

ARTIGO

IDENTIDADE E MODERNIDADE NA PRODUÇÃO ARQUITETÔNICA DO INÍCIO DO SÉCULO XX: MOVIMENTO NEOCOLONIAL E REGIONALISMO CRÍTICO







1. INTRODUÇÃO
“A realidade de um fato narrado é, sem sombra de dúvida, diferente da realidade do fato ocorrido, mas a narração que se faz hoje de fatos acontecidos no passado tem, pelo tipo de vida que se leva hoje, um valor que o fato ocorrido, como tal, não pode ter”(Argan; G. C.)
Para empreender uma análise crítica de um fato ou de um processo histórico talvez não reste dúvida de que um distanciamento no tempo seja benéfico, a despeito dos esforços de aproximação necessários. Assim, passadas as primeiras décadas do século XX, quando borbulhavam mais ou menos ao mesmo tempo uma variedade de correntes arquitetônicas, passado o movimento moderno, neste trabalho, procurou-se analisar o Movimento Neocolonial (doravante MN) que se deu no Brasil e na América Latina, levando-se em conta os significados e ensinamentos das fases mencionadas e com vistas a contribuição para uma revisão historiográfica. Para ajudar nessa análise foram feitas comparações entre o MN e outra linha de arquitetura que também empregou certos recursos tradicionais e locais, a que pode ser reconhecida dentro da categoria de regionalismo crítico [1]. O principal objetivo foi procurar perceber o MN de um ponto de vista diferente, a fim de melhor compreendê-lo. Foi fundamental estudar autores que abordaram conceitos gerais, tais como globalização, modernidade e pós-modernidade para entender melhor os diferentes momentos históricos nos quais surgiram determinadas linhas arquitetônicas e porquê elas surgiram e para ter uma visão da situação da América Latina num contexto global. Alguns desses autores foram David Harvey e Mike Featherstone.
 
Também foi indispensável fazer uma revisão dos autores acerca de conceitos que ajudaram a elucidar fenômenos que afetam diretamente a arquitetura, como os de identidade, região, regionalismo crítico, modernidade apropriada, centro/periferia. Eles foram Alberto Saldarriaga, Cristian Fernandez Cox, Kenneth Frampton e Marina Waisman.
 
Após apresentar algumas diretrizes históricas sucintas sobre o MN, fez-se um esforço para analisar a arquitetura dele derivada tendo em mente os conceitos estudados e para compará-la com o regionalismo crítico, já que têm aspectos em comum. Na parte final do trabalho levantam-se algumas suposições, bem como algumas conclusões.
 
 
2. REFLEXÕES CONCEITUAIS
“Tornou-se clichê a afirmação de que vivemos em um único mundo. Aqui temos em mente uma variedade de imagens: as fotos do planeta Terra tiradas do espaço (...); o senso de um desastre global iminente (...). Essas imagens realçam o senso de que somos interdependentes, que os fluxos de informação, conhecimento, dinheiro, mercadorias, pessoas e imagens têm se intensificado a ponto de ter-se desgastado o senso de distância espacial, que separava e isolava as pessoas da necessidade de levar em conta todas as demais pessoas que constituem aquilo que passou a ser conhecido como a humanidade. Com efeito, todos nós estamos no quintal uns dos outros. Assim, uma conseqüência paradoxal do processo de globalização, a percepção da finitude e da ausência de limites do planeta e da humanidade, não é produzir a homogeneidade, e sim familiarizar-nos com a maior diversidade, com a grande amplitude das culturas locais”(Featherstone, M., p. 123).
Considerando-se as condições da América Latina, em termos históricos, econômicos e sociais, pode-se dizer que esta é uma vasta região dentro da qual coexistem muitas peculiaridades, embora se deva considerar que também possui muitas características semelhantes, principalmente, em relação aos países desenvolvidos. Assim, desde o século XIX, as nações latino-americanas se vêem às voltas com a afirmação de sua própria identidade e esse é um dos traços que têm em comum. Essa é matéria sempre e muito estudada, principalmente, por constituir o cerne das manifestações culturais e artísticas, incluindo-se aí, a arquitetônica e por estar ligada ao grande desenvolvimento dos recursos da tecnologia e da indústria, a partir das duas últimas décadas do século XX, quando o advento da globalização eleva para outro patamar as discussões sobre influências de umas culturas sobre outras, já que a carga e a velocidade de informações cresceram como nunca.
 
Desde a década de 1980, quando Frampton (1997, p.381) empregou o termo “regionalismo crítico” [2], seu conteúdo conceitual tem sido discutido por diversos estudiosos de arquitetura. De forma sucinta, esse termo denomina manifestações de arquitetura que não se renderam ao avanço da civilização universal, resistiram, mantendo certas características da cultura local - porém, sem cair no sentimentalismo, mas usando recursos vernaculares como soluções adequadas. Não se trata de um estilo, mas de uma “categoria crítica”, embora seja, acima de tudo, uma “prática marginal” (Frampton, op.cit., p.398-99). Na seqüência, uma revisão de alguns autores latino-americanos foi realizada a fim de precisar melhor outros conceitos e/ou definições relacionados ao “regionalismo crítico”, tais como regionalismo, identidade, modernidade, pós-modernidade e que serão importantes para a análise do MN.
 
Cox (1988) inicia sua argumentação com uma pergunta: “Regionalismo crítico o modernidad apropriada?” Sua principal crítica à expressão de Frampton é a de que este só poderia ter sido elaborado por alguém com uma visão de quem está fora da periferia e olha para ela:
“Es posible que este nombre sea adecuado para una toxonomia histórica vista desde el centro (en cuya óptica lo que ocrre fuera se vê como regional), tal como hace Frampton de acuerdo con sus propósitos y su perspectiva” (Cox, op.cit., p.63).
Assim, alerta para que não caia neste equívoco alguém que não faça parte do que se convencionou chamar “centro”[3], como qualquer latino-americano. Além disso, afirma não ser adequado à própria palavra “regionalismo”, menos ainda qualificada pelo adjetivo “crítico”:
“esto es lo que la palabra implica: una cierta cerrazón a lo externo, un cierto exclusivismo local, una cierta contraposición a los aportes civilizatorios universales que, en nuestro caso, implican de hecho una cierta contraposición a los imperativos de modernización a que estamos enfrentados; en síntesis, una actitud un tanto chauvinista, retrógrada o nostálgica, a ala larga siempre insosteníble. (...) un “regionalismo” que por “crítico” “no es tan regionalista”, y que acepta ciertos aportes universales. Sería como un universalismo que por estar volcado “sobre sus propias reglas” aceptase ciertos aportes regionales, lo que está muy bien. Pero, con esta ambigüedad, el “regionalismo crítico” sería idéntico a su contrario, el “universalismo crítico”; lo que constituye una muestra, llevada al extremo, de la ineficacia semántica del término” (Cox, op.cit., p.64).
Como alternativa para o questionado “regionalismo crítico”, Cox propõe “modernidade apropriada”, que levaria em conta, tanto a realidade e as possibilidades locais, com suas limitações e inclusive seus saberes vernaculares, quanto os recursos desenvolvidos em outros países (refere-se aos do Norte), que deveriam ser assimilados de maneira inteligente e aplicados de acordo com a condição local:
“en síntesis, (...) la actitud que queremos construir ante la situación que debemos enfrentar, su natureza, su carga de valor, sus imágenes, sus impulsos y, finalmente, su vocación latente a ser proyectada en libertad, queda mejor servida con el nombre de búsqueda de una modernidad apropriada; que no es un “ismo” excluyente, ligado a una localidad geográfica, sino un imperativo teórico de la arquitectura, en cada contexto: en su lugar y su época” (Cox, op.cit., p.66).
Essa seria uma atitude possível para o desenvolvimento da arquitetura nos países “periféricos”, um caminho que poderia conduzir a respostas para os problemas próprios desses países, e não uma “prática marginal”, como coloca Frampton, a partir de sua visão desde o centro.
 
Continuando a discutir sobre região, centro e periferia, é preciso citar Waisman (1990). Essa autora retorna ao termo “regional”, em substituição aos termos complementares “centro/periferia”, porém enfatiza que deve ter uma conotação diferenciada daquela proposta por Frampton, que o “vê como una possibilidad de resistencia ante el aparato del mundo postindustrial, como un modo de mantener un núcleo vital sin dejarse absorber por el aparato” (Waisman, op.cit., p.72). Waisman, por sua vez, o interpreta como “una divergencia dentro de la dirección general de la cultura postmoderna, como un intento de hallar caminos alternativos a los que marca la socieded global” (Waisman, op.cit., p.72). Em outras palavras, a “divergência” considera várias circunstâncias e vários locais, sem que nenhum seja predominante, ao passo que, a “resistência” sugere um esforço para permanecer apesar da predominância de um conjunto de novas idéias que vêm se impondo. Dessa forma, rompe com a forma de pensar associada ao esquema “centro/ margens” ou “centro/periferia”, no qual está presente uma escala de valores e uma relação de dependência, e passa a considerar cada “região” por si, independentemente. Assim,
“la Idea de región, contrariamente a la de periferia, ubica a cada cultura en un sistema que tiene como base precisamente la pluralidad de regiones, sistema en el cual ninguna de ellas ejerce la hegemonía ni puede, por tanto, erigirse en modelo de validez universal” (Waisman, op.cit., p.72).
Além disso, essa alteração na forma de raciocinar sobre os conceitos, assinala também uma outra maneira de encarar o processo histórico, já que aceita a superação de alguns preceitos da modernidade, que estão associados a uma visão de mundo tendo um centro cuja influência se irradia para o resto do mundo, e passa a acatar valores da pós-modernidade, nos quais são predominantes idéias de heterogeneidade e diversidade, quando “se verifica en esse sistema [o anterior, o da modernidade] la pérdida del centro (...) y la valoración de las culturas “marginales” en ausência de valores centrales” (Waisman, op.cit., p.72). Assim, vê como legítimas, valiosas e adequadas, as práticas “marginais”, tanto quanto as que acompanham o desenvolvimento da civilização universal.
 
Saldarriaga (1994) analisa o impacto da modernidade e da pós-modernidade sobre a América Latina e seus reflexos na arquitetura. Segundo este autor, sobre o grande mosaico constituído por
“pequeñas élites oligárquicas, burguesías incipientes, clases medias exiguas, inmensos sectores populares, urbanos y rurales y restos de culturas indígenas que sobrevivieron al paso de los colonizadores y de los evangelizadores” (Saldarriaga, op.cit., p.31),
e que caracterizava a sociedade latino-americana no início do século XX, se estabeleceu a modernidade. Ou seja, sobre uma, ou melhor, várias sociedades, diferentes umas das outras e em pleno processo de formação, cheia de diversidades e desigualdades, marcadas pela experiência de colonização e exploração, se sobrepôs a modernidade, com seus ideais de “grandes coisas[4], de progresso, de desenvolvimento, de industrialização, de massificação, de unificação etc. Resultado disso é que “al llegar a América, la modernidad se presentó como una possibilidad de unidad antes de fragmentarse en incontables adaptaciones regionales y locales” (Saldarriaga, op.cit., p.32), mostrando que, talvez, para essas sociedades sejam mais aceitáveis os preceitos pós-modernos, pois trabalham com a fragmentação, e que muitos aspectos do desenvolvimento incompleto da sociedade latino-americana tenham sido acelerados, para bem e para mal. Mais tarde, uma vez mais o processo se repete, já que essas mesmas sociedades entram na pós-modernidade, sem terem sido devidamente modernas (industriais e desenvolvidas):
“la confrontación entre la posmodernidad y la condición latinoamericana señala (...) dos maneras distintas de ver el futuro, una de ellas guiada por el hatío, outra por la necesidad. Es un cruce de caminos en el que uno de ellos, el de la posmodernidad, conduce al “más allá” de un territorio que el otro no ha terminado de recorrer” (Saldarriaga, op.cit., p.38).
De qualquer forma, segundo o raciocínio do autor acima, pode-sedizer que o projeto (latino-americano) continua inconcluso.
 
A essa questão em aberto, Waisman (1991) propõe um “proyecto de modernidad”, concordando, a princípio que, na América Latina, se vive três tempos históricos, concomitantemente, valendo-se da definição “espírito do tempo[5]: o “Premoderno, el Moderno, y el Posmoderno” (Waisman, op.cit., p. 90). Contudo, mais adiante, a autora explica que a definição “espírito do lugar” é mais adequada à proposta que faz, posto que “se concreta en lo físico, pero apoyada en la teoria y la historia del lugar, pues (...) el lugar es intrínseco a la vida misma: la vida se realiza en el habitar, y el habitar presupone el lugar” (Waisman, op.cit., p. 90). E, assim, sugere que se aceite e reivindique, de uma vez por todas, a modernidade para as nações latino-americanas, sem esquecer dos alertas feitos pela pós-modernidade, sobre a aceitação da diversidade e da heterogeneidade, para que, finalmente, nessa região, se possa alcançar o
“progreso del ser humano, progreso de la calidad de vida, de la dignidad humana, de la realización de las potencialidades humanas [para que] en el âmbito de una Modernidad semejante encontrarían natural conciliación los conflictos que nos afligen; nuestras ciudades y nuestra arquitectura podrían ser modernas sin arriesgar su identidad” (Waisman, op.cit., p. 98).
Um pouco a revelia dos conceitos e das condições históricas, a autora quer dizer que é preciso nunca perder de vista que o importante é buscar caminhos próprios, residindo aí a tão perseguida identidade, e dar respostas objetivas aos problemas enfrentados pelos países “periféricos”, sem esquecer as lições da modernidade e da pós-modernidade.
Um dos conceitos mais básicos e que paira sobre toda a discussão desenvolvida é o de identidade. Encontra-se, ainda, em Waisman (1995), uma definição muito esclarecedora sobre o termo:
“el concepto de identidad implica el de unidad, y este, a su vez, compreende dos aspectos: la indivisibilidad intrínseca (...), y la distinción de todo outro (...). La identidad solo adquiere sentido si está en presencia de una multiplicidad que le es ajena” (Waisman, op.cit., p. 33).
Ao se aplicar esses enfoques para refletir sobre o problema na América Latina, faz sentido admitir que a unidade desta região está ligada à “mirada europea [6]” sobre ela. A partir do momento em que os conquistadores entraram em cena, as inúmeras sociedades – diferentes umas das outras - existentes pelo subcontinente passaram a ter algo em comum, o fato de estarem na condição de conquistados. Após longo tempo de elaboração e de conscientização desse estado de ser em relação ao “outro”, emerge a necessidade de buscar respostas para o que se é. Esse processo é a busca da identidade própria. Nas palavras de Waisman (op.cit., p. 35),
“una identidad se cronstruye a partir del reconocimiento del próprio ser y del ser diverso. Y cuando este diverso es hostil u opresor, la necesidad de afirmar el propio ser se agudiza”.
Esse é, então, um dos aspectos que se pode analisar na produção arquitetônica latino-americana (de vários períodos), se ela está refletindo as questões mais fundamentais da sociedade e se está respondendo às suas exigências. Pode ocorrer que as respostas mais adequadas precisem recorrer aos avanços e recursos já alcançados pelas sociedades mais desenvolvidas industrial e economicamente, circunstância que deve ser vista positivamente, pois pode atuar como catalisador no desenvolvimento das condições locais e evita que se estabeleça um destino hermético numa região ou nação.
“Pero, para que eso ocurriera, para que se produjera enriquecimiento y no destrucción, era menester que la cultura local tuviera fuerza suficiente como para asimilar las novedades adecuándolas a sus propias pautas” (Waisman, op.cit., p. 36).
Por certo, este é um dos motivos mais importantes de encontrar e reconhecer a própria identidade, ou seja, não se diluir ante a presença de outra cultura e, ao mesmo tempo, poder usufruir de suas inovações.
 
Uma vez que esses conceitos foram debatidos num plano mais teórico, a seguir serão aplicados na análise comparativa de duas linhas de arquitetura ocorridas na América Latina. Uma surgida na primeira década do século XX, juntamente com a emergência do sentimento nacionalista – a “neocolonial” - e, outra, que talvez não seja muito apropriado chamar de “linha”, ligada ao movimento moderno, mas que agregou ao international style características próprias do local, ou seja, se apropriou, assimilou e empregou a ideologia e os recursos da nova arquitetura gerada nos países “centrais”, e ainda assim conseguiu dar expressividade à sua identidade.
 
 
3. SOBRE O MOVIMENTO NEOCOLONIAL
 
Desde as duas últimas décadas do século XIX, a influência das idéias e da cultura européia (principalmente, francesa) se estabeleceu por toda a América Latina e foi um dos fatores que levou a antiga arquitetura colonial ao gradual esquecimento, em especial, nas capitais e nos centros mais desenvolvidos.Essa era uma arquitetura ligada ao passado e, então, ansiava-se pelo futuro; o importante era, cada vez mais, acolher as inovações que emanavam da Europa. A arquitetura procurava refletir um novo gosto europeu, expressando-se, entre outras maneiras, principalmente, através da retomada dos estilos[7] do passado, acadêmicos e muito dependentes de materiais de construção importados. Nessa ânsia "modernizadora", a arquitetura buscou vários caminhos e experimentou novas técnicas. Até o final da década de 1910, a corrente arquitetônica que predominou, no Brasil, foi a do ecletismo, com suas variantes regionais. Manifestaram-se o estilo neoclássico, os estilos historicistas, os orientais, o art nouveau e o art decò, numa seqüência que preservou a coexistência. Houve, também, a introdução de novas técnicas, como o uso da alvenaria de tijolos, que substituiu definitivamente a taipa; o uso dos vidros de maiores dimensões e com empregos diferenciados; do concreto armado e das estruturas de ferro; das instalações sanitárias e hidráulicas (Santos, 1981; Fabris, 1987). O neoclássicojá estava presente há mais tempo, tendo predominado no Rio de Janeiro desde a
“segunda década (...) do século XIX e foi, por excelência, o estilo do período Imperial. Refletiu, aqui, uma tendência comum a todo o Ocidente em fins do século XVIII e princípios do XIX, de retorno às formas da antiguidade clássica greco-romana” (Santos, op.cit., p.51).
No Brasil, o fluxo de produtos de origem européia era bastante grande, sendo que vários setores da economia dependiam da importação, especialmente o da construção. Tudo o que fosse europeu, era acompanhado por uma aura de modernidade. Essa euforia progressista foi arrefecida pelo advento da Primeira Guerra Mundial, que prejudicou a produção industrial européia e o tráfego marítimo, diminuindo drasticamente a quantidade de mercadorias que atravessavam o Atlântico.
 
A escassez desses produtos foi um dos fatores que dificultou a continuidade do ecletismo no Brasil. Segundo LEMOS (1987, p.91), eram essas importações contínuas de elementos construtivos e materiais “que garantiam o êxito do Ecletismo europeu entre nós.” Por outro lado, a nova corrente arquitetônica que surgia - chamada neocolonial - não dependia tanto das importações. Assim, cessando a provisão de materiais importados, entra em decadência o estilo eclético [8] que dele dependia, abrindo-se um espaço maior para o estabelecimento do neocolonial, que podia ser realizado com os recursos da indústria nacional.
 
Simultaneamente (início do século XX), o sentimento nacionalista foi reavivado nos países latino-americanos. Esse fenômeno estava associado às comemorações dos centenários de independência ocorridos em vários países desse continente e consistia numa das idéias básicas do MN, ou seja, a busca das raízes e da identidade nacionais. Segundo AMARAL (1994, p.16),  
"el neocolonial, con tudos sus equívocos y empastelados, pasaría a ser para muchos países en América Central y en América del Sur, así como para México, la apertura para trascender los europeísmos arquitectónicos neoclásicos. Significaría la búsqueda de la tan deseada independencia cultural que subitamente adquiere importancia debido a las conmemoraciones de los centenarios de independencia política de los países latinoamericanos”.  
LEMOS (1987) e SANTOS (1981) também afirmam que o MN foi expressão do sentimento nacionalista na arquitetura do período.
 
Naquele momento (duas primeiras décadas do século XX) havia uma atmosfera de indefinições e questionamentos e os profissionais da arquitetura estavam divididos entre as antigas e as novas tendências. Os ideais da modernidade forjados do outro lado do Atlântico já aportavam na América[9] mas, "assim como evidentemente os estilos históricos não desapareceram de um momento para o outro, o movimento ‘moderno' não surgiu repentinamente” (Bruand, 1997, p.61). No Brasil, durante a Semana de 22, a arquitetura foi representada por Antonio Garcia Moya,
“autor de casas inspiradas na tradição mourisca espanhola, que, em suas horas livres, colocava no papel desenhos de uma arquitetura visionária que agradava aos futuristas por sua fisionomia extravagante” (Bruand, 1997, p.63)
e, no mesmo ano, na Exposição Internacional do Centenário da Independência,
“alguns dos pavilhões brasileiros eram inteiramente acadêmicos, mas a sua maioria (e indiscutivelmente os melhores) prendia-se ao novo estilo [neocolonial] considerado símbolo da emancipação artística do país, cem anos após a sua emancipação política” (Bruand, 1997, p.55).
Assim, nota-se que existiam várias possibilidades para a arquitetura, mas nenhuma delas era predominante.
 
Essas foram as principais condicionantes históricas envolvidas no aparecimento desse movimento. Cabe agora, refletir sobre alguns de seus aspectos e compará-los ao regionalismo crítico.
 
 
4. ANÁLISE COMPARATIVA
 
O conteúdo ideológico do MN era análogo por toda a América Latina e se pautava, principalmente, nos preceitos inspirados pelo sentimento nacionalista e na reivindicação da categoria de “autêntica” para a arquitetura identificada com esse pensamento. Claro, a busca das origens mais profundas também era um aspecto semelhante, derivado do nacionalismo então eminente, contudo, pode-se considerar que essa busca foi uma das geradoras de particularidades entre o MN dos vários países latino-americanos[10].
 
Partindo de um ponto ideológico comum, a procura das raízes resultou em um amplo leque de resultados. Assim, grosso modo, pode-se dizer que, enquanto, no Brasil, inevitavelmente, a busca encontrou a arquitetura portuguesa e o barroco brasileiro, nos outros países, de colonização espanhola, fatalmente encontrou a arquitetura da Espanha e a dos povos indígenas. Embora todas essas expressões arquitetônicas sejam semelhantes no sentido de que são coloniais ou pré-colombianas, são muito diferentes na origem e características. Nesses meandros, há que se considerar que o passado ligado à dominação espanhola talvez não fosse repleto de boas lembranças às quais as ex-colônias fizessem questão de manterem vivas. Não querendo dizer com isto que o domínio português no Brasil tenha sido mais brando, mas, por aqui, não existiram os traumas das guerras de independência, fator que possivelmente incentivou diferentes graus de referências às culturas dos respectivos países colonizadores. Também vale lembrar que a arquitetura indígena foi mais expressiva em outras partes da América Latina que em terras brasileiras, outro fator gerador de especificidades na manifestação do MN (ainda assim, no Brasil, apareceram alguns traços da cultura marajoara, mas associados à arquitetura art decò). [11]
 
A despeito das bases ideológicas fundamentais que o orientou, no Brasil, o MN apresentou algumas peculiaridades, para não dizer contradições. Primeiro, das principais figuras com ele envolvidas - construtores, arquitetos e idealizadores – várias não eram brasileiras e, portanto, não tinham relação com a tradição brasileira. Entre elas, Ricardo Severo (português, considerado fundador do movimento em São Paulo[12]); Victor Dubugras (franco-argentino); Georg Przyrenbel (polaco); Ranzini (italiano). Segundo, o repertório verdadeiramente tradicional foi interpretado e mesmo inventado, de maneiras bastante livres que punham de lado os preceitos dos outros estilos, rompendo com o velho academicismo, sendo que, neste aspecto, o MN foi uma incongruência: “modernidade expressa através da tradição” (Santos, 1981, p.94-95). Ou seja, representou, por um lado, a modernidade, posto que se desligou do receituário acadêmico e, por outro, a retomada das origens nacionais. Essa, por assim dizer, oposição de idéias, foi uma marca comum do movimento em vários países da América Latina. De qualquer forma, naquele momento (início do século XX), a emergência de um movimento que permeou as regiões centro e sul do continente americano e de conteúdo que incluía pautas sobre nacionalismo, origens, raízes etc., sem dúvida, expressa um dos primeiros sinais de amadurecimento e conscientização das sociedades com relação à questão da identidade.
 
Antes do MN, a arquitetura, sobretudo a partir de meados do século XIX, manifestava-se sob a influência do ecletismo europeu, fato que pode ser compreendido de acordo com o esquema “centro/periferia. Num dado momento, dá-se a reação contra esse estado de coisas. O MN passa a rechaçar a influência externa e volta-se para o resgate do que havia antes dela. Pode-se dizer que este foi um momento efêmero[13]. Logo, também nos anos de 1920, os efeitos das idéias da modernidade chegavam das nações industrializadas e traziam consigo novos preceitos para a arquitetura. Mais uma vez, os países “periféricos” receberam outra forte influência: a do Internatinal Style. Essa arquitetura, igualmente, tinha o caráter de reação contra o academicismo, mas não estava em busca de nenhuma identidade cultural nem de nenhuma afirmação de nacionalidade, ao contrário, como o próprio nome expressa, aspirava ser internacional, tencionava resolver os problemas do “Homem[14] a partir dos recursos da indústria, da standardização e do mercado. Todavia, ocorre que, quando chegaram ao Brasil e a outros países latino-americanos, a estamodernidade e sua arquitetura sofreram, por vezes, os efeitos da assimilação e da adaptação às diferentes condições desses vários países, em termos de cultura, de clima, de recursos técnicos etc. Essa acomodação de idéias novas à variadas situações gerou o chamado “regionalismo crítico”, manifestação arquitetônica que alcançou felizes resultados e tornou-se paradigma:
“Luis Barragán, en México, Fernando Martinez y Rogelio Salmona en Colômbia, Lucio Costa, Oscar Niemeyer y Severiano porto en Brasil, Eladio Dieste en Uruguay, Fernando Castillo en Chile, Clorindo Testa en Argentina, Juvenal Baracco en Peru, entre muchos otros. Sus obras más significativas se reúnen en un gran conjunto, heterogéneo en sus formas y análogo en sus intenciones, en el que se aprecian claramente esos destellos creativos individuales que caracterizan la condición cultural latinoamericana” (Saldarriaga, 1994, p.36).
Assim, pode-se dizer que essa arquitetura também seja uma espécie de reação – tanto quanto o “neocolonial” o foi – pois considerou e deu expressão à questão da identidade na sua constituição. Isto posto, quais seriam, então, as diferenças entre as duas linhas, a do “neocolonial” e a do “regionalismo crítico”?
 
De início, se poderia fazer uma referência à diferença que existe entre os resultados alcançados pela arquitetura do MN e pela “regionalista crítica”. É possível notar que a última exibe traços próprios da cultura local e do modo de fazer vernacular, associadas a outras características e técnicas, de maneira que a sua totalidade mostra, de forma sutil, que a identidade foi respeitada e as necessidades foram resolvidas. Observando-se as obras “neocoloniais”, nota-se que elas têm algumas características em comum com o que Featherstone (1997, p. 135-36) chamou de “espaços pós-modernos”, guardando-se as devidas proporções:
“uma das características freqüentemente usadas para descrever esse tipo de arquitetura é o “lúdico”. (...) A Disneyworld é um dos melhores exemplos. (...) A combinação de cenários cinematográficos realistas, animação eletrônica, sons e odores muitas vezes basta para convencer os adultos a deixar de lado a descrença e a reviver a ficção”.
Esse tipo de construção do espaço teria a intenção de “levar de volta ao passado”, ou melhor, de “trazer para o presente” aquilo que já pertence ao passado, de maneira que, nesse tipo de ambiente, o tempo fique cristalizado. Certamente, essa atitude está repleta de nostalgia. De certa forma, a arquitetura “neocolonial” foi uma construção artificial que, nostalgicamente, utilizou um repertório de elementos que traziam à lembrança um passado, no qual estariam as raízes que garantiam a identidade nacional. Talvez, a diferença de resultados entre as obras “neocoloniais” e “regionalistas críticas” seja explicada, em parte, devido ao fato de que, no caso dos últimos, não existe a intenção de trazer o passado para o presente, o que libera o criador da necessidade de utilizar artifícios. E, então, a ligação com o que há de autêntico e regional se expressa (ou aflora) de forma mais sutil e espontânea. Por outro lado, é preciso considerar que os momentos históricos em que se deram uma e outra manifestações arquitetônicas são diferentes. Para reivindicar nacionalidade e identidade, o MN precisava de um passado, mesmo que inventado, pois a “geração de rituais, cerimônias e memórias coletivas (...) é algo vigoroso e oferece grande apoio emocional” (Featherstone, op.cit., p.150). Para tomar fôlego, dizer basta a uma pesada influência externa e afirmar uma emancipação cultural, talvez tenha sido mesmo necessário apoio emocional. Assim, mesmo que Waisman (1991, p.93) afirme que “cuando intentamos revivir el pasado logramos, a lo sumo, inventar una imagen cinematográfica de un pasado inexistente (como en el Neocolonial o Californiano)” - afirmação que não se contesta - é possível atribuir validade ao MN, pois representou um deslocamento imprescindível no sentido do amadurecimento cultural latino-americano. Embora, atualmente, seja possível verificar com clareza que os resultados do MN não foram muito condizentes com sua ideologia, cujo conteúdo foi profundo, é apropriado procurar entender por quais motivos se deu essa lacuna.
 
Já foi dito que a efervescência do MN aconteceu pouco antes da chegada da idéias modernistas à América Latina[15]. Tal fato tem implicações na maneira segundo a qual um pensamento é desenvolvido e dá expressão à arquitetura, por exemplo. No Brasil, embora os principais mentores do MN defendessem, teoricamente, certas premissas importantes para que o movimento tivesse uma boa expressão na prática, talvez, o momento estivesse por demais impregnado pelo ecletismo, pelo modo de concebê-lo e realizá-lo. Assim, é surpreendente verificar que José Mariano Filho sustentava preocupações acerca dos aspectos mesológicos e tinha consciência de que a ornamentação e o aspecto plástico, por si só, não resolviam os problemas fundamentais da arquitetura, como mostra Silveira (2002, p.59-60):
“Para José Mariano as construções da época da colonização, quando começou-se a formar uma identidade nacional, tiveram influência de diversos fatores. Eles iam desde uma diversidade climática que exigia uma tipologia arquitetônica adequada ao clima específico da região, ou ainda da disponibilidade de matéria-prima edificante. (...) Como exemplo, ele cita que nas construções no litoral nordestino usou-se a palmácea exótica, Cocus nucifera, por influência dos negros, e ainda houve diversos outros elementos vegetais edificantes de influência indígena. (...) Portanto, segundo a acepção de José Mariano, o Neocolonial não deveria se ater exclusivamente aos aspectos exteriores da construção, se assim fosse esse estilo não estaria legitimamente ligado a tradição brasileira. Seria nada mais que uma derivação do ecletismo “internacional, eu não me preocupo jamais com as características plásticas da arquitetura tradicional brasileira, porque o que eu busco nelas está acima dessas qualidades[16]. Essas qualidades do mesmo modo que não são exclusivamente plásticas, também não estão relacionadas apenas com a técnica construtiva. O que o autor procura é uma arquitetura que “traduza as verdadeiras necessidades sociais”, isto é, um instrumento social de nacionalidade”.
Da mesma forma, é um tanto inusitado constatar que Ricardo Severo, quando
“passa a pregar a necessidade de afirmação de uma arte e arquitetura brasileira (...) condenava abertamente o modismo das fachadas ecléticas de então, que de uma maneira geral amesquinhavam a arquitetura paulista” (Gonçalves, 1997, p.32).
Assim, o MN sabia contra e a favor de quais pressupostos sua postura estava voltada, mas não teve – nem poderia ter, naquela hora – abertura suficiente para compreender e assimilar o salto impulsionado pela pretendida modernidade na arquitetura. A indústria exigia uma nova linguagem e um novo modo de produzir arquitetura, completamente incompatíveis com a maneira através da qual se realizava o ecletismo [17], mais um motivo fortíssimo para se deixar toda a ornamentação de lado e empenhar-se no trabalho com outros elementos da arquitetura: a racionalidade; a estrutura; a técnica. As nações latino-americanas contavam com indústria e recursos técnicos insipientes e ainda se debatiam na afirmação de sua identidade quando as novas idéias chegaram. Portanto, pode-se especular se um dos motivos pelos quais a arquitetura “neocolonial” se expressouessencialmente pelo emprego de elementos formais e simbólicos – apesar de sua orientação ideológica, que pregava o inverso – foi a sua incapacidade para digerir a mudança rápida de conceitos promovida pela chegada da daquela modernidade. Naquele momento, um tanto entorpecido pelas agitações intelectuais e culturais, talvez, a linguagem formal e simbólica fosse o recurso viável para expressar a principal razão de ser do MN: a busca da identidade nacional. Pode-se supor, ainda, que à próxima geração de arquitetos - os realizadores do chamado “regionalismo crítico” - coube a assimilação do novo ideário moderno. Assim, conseguiram incorporar em sua produção o trabalho com a técnica e a racionalidade – novo modo de encarar o feitio da edificação, trazido pela modernidade -, sem abandonar os vínculos com a identidade cultural latino-americana. É possível, então, afirmar que outra distinção entre a arquitetura “neocolonial” e a “regionalista crítica” seria que a primeira emprega basicamente uma linguagem simbólica e formal, de caráter historicista, enquanto a última privilegia o aspecto técnico da construção, sendo que, quando utiliza modos de fazer vernaculares ou históricos, é no sentido de adequar a arquitetura às necessidades locais.
 
Outros aspectos pertencentes à arquitetura “neocolonial” e à do “regionalismo crítico” podem ser aproximados a fim de aprofundar esta reflexão. Além das suposições levantadas, existe outra relacionada à questão do tempo e do lugar. Poderia-se concluir rapidamente que a arquitetura “neocolonial” não esteve de acordo com seu tempo, uma vez que sua principal preocupação foi tentar trazer de volta o passado, para mostrar que esse passado existiu[18]. Mas, seria possível afirmar que não esteve adequada ao local? Ela não respondeu às necessidades espaciais que se impunham em nenhum aspecto? Não trabalhou com os recursos disponíveis numa época de carência de materiais importados? Não aplicou técnicas novas? Não acompanhou as novas necessidades programáticas? Não esteve nunca adequada ao sítio e às condições climáticas? São questões que demandam investigação e fazem questionar a afirmação de Cox (1991, p.21): “me parece a mi que los neofolclorismos populistas, parten directamente de las formas del pasado y las estilizan o recombinan para modernizarlas (...) pero no hay ninguma seguridad de que se hayan abordado efectivamente los problemas reales de esse ahora de aqui.” Afinal, a arquitetura se manifesta em diferentes momentos, segundo inúmeras condições e fatores que a determinam. Por isso, nem sempre seu resultado pode ser considerado bom sob muitos aspectos, embora isso possa ocorrer, como no caso do “regionalismo crítico”. Essa linha arquitetônica respondeu às necessidades do aqui e do agora, por exemplo, além de apresentar outras qualidades.
 
 
5. CONCLUSÕES
 
Da comparação entre a arquitetura ligada ao MN e a que pode ser associada ao regionalismo crítico emergiram traços que as aproximaram e que as distanciaram. O exercício de reflexão sobre a aproximação entre ambas foi bastante rico, já que pôs em evidência tais traços e ajudaram a compreender melhor uma e outra, bem como analisar os conceitos nelas envolvidos.
 
Por trás da maior especificidade que a arquitetura neocolonial e o regionalismo crítico têm em comum – a preocupação em expressar a identidade – podem ser encontradas algumas diferenças. A primeira delas é, certamente, a nostalgia que está presente na produção neocolonial. A preocupação em fazer com que o passado fosse trazido de volta e estivesse cristalizado na própria constituição das obras neocoloniais, acabou resultando numa arquitetura de caráter lúdico e, muitas vezes, até artificial. As referências ao passado foram conseguidas, primordialmente, através do desenvolvimento de uma linguagem simbólica, formal e de caráter historicista que, além disso, permitiu a inclusão de “invencionices” totalmente desligadas de qualquer alusão a um repertório já existente. Como foi visto, a preocupação do MN ia além da linguagem formal, se pautando na noção de que apenas esse aspecto não resolveria as questões essenciais da arquitetura (materiais, adequação ao sítio e às necessidades, desenho etc.). Mas, oefeito desse pensamento amplo foi reduzido na prática, fazendo aparecer um hiato entre o movimento e a arquitetura. Ainda assim, apesar de ser adequado admitir que existiu essa distância entre o conteúdo do MN e a arquitetura ligada a ele, pode-se afirmar que essa produção refletiu um amadurecimento latino-americano com relação à sua identidade, sendo este uma de suas virtudes.
 
Outra diferença que marca a arquitetura neocolonial, em relação ao regionalismo crítico, é o fato de ela ter se popularizado. Podem ser encontrados exemplares construídos até três décadas depois do aparecimento do MN (1914), ou seja, tardios e de caráter popular. Essa linha arquitetônica se apropriou de conhecimentos construtivos das diversas matrizes culturais que participaram da formação da sociedade latino-americana e, também, de um imaginário sobre o passado dessa sociedade. Como resultado - além das obras eruditas, sobre as quais as críticas poderiam ser mais sutis -, apareceram os pastiches, os exageros e as manifestações equivocadas. Ainda assim, trata-se de uma produção válida, se for encarada como representativa de uma fase e se pesquisas mais aprofundadas revelarem suas possíveis qualidades. O fato de ter se popularizado indica que, certamente, houve uma identificação do neocolonial com os anseios da sociedade. Embora o MN tenha sido gerado por intelectuais e difundido por arquitetos, foi disseminado entre as camadas populares, permanecendo por bastante tempo e alcançando regiões para além dos grandes centros e das capitais.
 
Em contrapartida, o regionalismo crítico não esteve comprometido em “recuperar” o passado, fator que certamente liberou os arquitetos que trabalharam nessa linha da necessidade de criar artifícios. Como resultado, sua linguagem se referiu à identidade, mas não desenvolveu um aspecto artificial. Empregou referências vernaculares e tradicionais de arquiteturas de diferentes regiões no sentido de apresentar soluções para problemas do presente, considerando o local: deu respostas para as questões do “aqui”e do “agora”. Ao mesmo tempo, pôde trabalhar com um raciocínio mais global na elaboração dos projetos – legado da modernidade para a arquitetura -, que leva em conta a racionalidade, a técnica, o sistema construtivo, a função e a forma como elementos tão importantes quanto a linguagem. Dessa maneira, pode-se dizer que a arquitetura que pode ser enquadrada na categoria de regionalismo crítico representou a síntese entre a assimilação dos aportes civilizatórios universais e a preservação das diferentes identidades dos países da América Latina. Essa categoria de arquitetura permaneceu elitizada, sendo encontradas somente obras de autores, mas apontou caminhos para suprir as necessidades sociais.
 
Em última instância, uma última conclusão deste trabalho é evidenciar a validade de se relativizar conceitos (tais como identidade, originalidade e pastiche), a fim de melhor avaliar o que deve ser preservado e o que se identifica com os anseios da sociedade.
 
 
REFERÊNCIAS
 
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WAISMAN, M. Un proyecto de modernidad. In: Modernidad y postmodernidad en América Latina. Bogotá: Escala, 1991, p. 89-98.


[1]Neste trabalho, a expressão “regionalismo crítico” (e suas variações) será usada para aludir à arquitetura descrita da forma acima; não significa que se esteja de acordo com o conteúdo definido por Frampton (1997) para ela, uma vez que esse conceito e outros a ele relacionados serão aqui discutidos.
 
[2]Definição retomada de Tzonis, A. (ver Frampton, K. História Crítica da Arquitetura Moderna. São Paulo. Martins Fontes,1997. p.394-96)
 
[3]Convencionalmente, se chamam “centrais” as nações desenvolvidas do hemisfério Norte. Esta convenção não foi aceita sem reflexão, neste trabalho, como será visto a seguir.
 
[4]Harvey (1993, p.46) descreve com o seguinte trecho uma diferença entre a modernidade e a pós-modernidade: ““Não faça pequenos planos", escreveu Daniel Burnham na primeira onda da euforia planejadora modernista no final do século XIX, ao que um pós-modernista como Aldo Rossi pode agora responder, mais modestamente: "A que, então, poderia eu ter aspirado em minha arte? Por certo a pequenas coisas, tendo visto que a possibilidade das grandes estava historicamente superada"”
 
[5]Ver Browne, E. Outra Arquitectura Latinoamericana. Ed. Taller América, Santiago de Chile, 1989, sobre “espírito do tempo” e “espírito do lugar”
 
[6]Campra, R. América latina, L’identitá e la maschera. Ed. Riuniti, Roma, 1982, citada por Waisman, M. “Identidad”. In: La Arquitectura Descentrada. Bogotá, Escala, 1995. p.35.
 
[7]Sobre o emprego do termo “estilo” é bom esclarecer que, apesar do “empobrecimento do conceito (...), base da arquitetura acadêmica durante o século XIX, e seu esgotamento cultural evidente na arquitetura eclética do período, carregaram esta palavra de uma conotação negativa, de tal forma que, hoje a maior parte dos trabalhos sobre arte relutam em utilizá-la, desenvolvendo termos alternativos” (Pinheiro, 1997, p.59), convencionou-se usá-la aqui para as correntes acadêmicas, posto que, tornou-se “sinônimo de um conceito acadêmico de arquitetura, cujos atributos e qualidades básicas restringem-se à decoração estilística aplicada à construção” (Pinheiro, 1997, p.60). Para correntes posteriores utilizou-se o termo “movimento”, pois foi quando começou o questionamento sobre a ornamentação que enquadrava a construção num determinado “estilo”.
 
[8]Claro, o ecletismo perdurou ainda, mas adaptando-se às novas condições; não se trata de uma ruptura brusca. Por exemplo, a escassez de calhas induziu ao retorno dos beirais de estuque (diferentes dos beirais com cachorros do “neocolonial”).
 
[9]Pode-se tomar como emblema da efervescência cultural daquele período a Semana de 22, porém, já desde o início da década de 1910, começaram a mostrar-se manifestações como, por exemplo, “as primeiras exposições expressionistas realizadas em São Paulo por Lasar Segall (março-abril de 1913) e Anita Malfatti (maio de 1914)” (Bruand, 1997, p.61). Assim, nota-se que as idéias do movimento moderno já eram correntes no Brasil, embora a arquitetura filiada a essa linha tenha se iniciado de forma tênue, ganhando vigor nas décadas subseqüentes, como afirma Segawa (1997, p.87 e 88): “a linha moderna iniciada com a literatura, a pintura e a escultura só depois ganhou a arquitetura.”
 
[10]Muitas outras condições, como as históricas por exemplo, estão associadas às diferenças entre os MNs, embora a acima mencionada seja uma das principais.
 
[11]Essas informações estão detalhadas nos artigos contidos em: Amaral, A. (1994). Arquitectura Neocolonial: América Latina, Caribe Estados Unidos. São Paulo, Memorial, Fondo de Cultura Económica. 331p. il.
 
[12]Considera-se que o início do movimento neocolonial se deu no ano de 1914, com a conferência intitulada “A Arte Tradicional no Brasil” do engenheiro português Ricardo Severo, sobre uma linguagem arquitetônica que deveria resgatar as raízes da arquitetura tradicional brasileira, ou seja, portuguesa.
 
[13]Talvez o movimento tenha durado 20 anos, embora sua difusão tenha se prolongado por quatro décadas, aproximadamente.
 
[14]Em sua obra, quando Harvey (1993, p.46) menciona a passagem da modernidade para a pós-modernidade, afirma: “Era hora (...) de construir para as pessoas, e não para o Homem”.
 
[15]Claro, tanto as idéias relacionadas ao “neocolonial” como as relacionadas ao modernismo foram debatidas concomitantemente, pois chegaram a conviver ao mesmo tempo, fato que gerou até disputas e clima tenso entre um e outro movimento; essa questão porém não será aprofundada pois não faz parte do enfoque deste trabalho.
 
[16]Mariano, J. F. A Margem do problema Arquitetônico Nacional. Rio de Janeiro, 1943. p.63.
 
[17]Durante o período eclético (século XIX), muitos elementos arquitetônicos chegaram a ser industrializados, como atestam os catálogos de propaganda de elementos metálicos, por exemplo. Porém, o modo de se realizar certas características da arquitetura eclética ainda estava muito ligada à manufatura; não abarcava a velocidade da máquina ou a lógica da indústria. Ver Patetta (1987, p.15-16): “a produção industrial (...) explodira na metade do século XIX, impondo suas impiedosas leis econômicas também ao canteiro de obras. De fato,subvertera-se a tradicionalrelação entre utilidade e beleza, com a imposição de elementos construtivos metálicos completamente estranhos às formas e às proporções características dos estilos e das ordens arquitetônicas.”
 
[18]Essa foi uma preocupação legítima daquele momento e, nesse aspecto, pode-se dizer que essa arquitetura esteve sim, respondendo a uma inquietação daquele tempo. Porém, talvez tenha sido essa preocupação um fator que contribuiu para que sua manifestação formal tenha deixado a desejar.
 
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