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       FÓRUM | Patrimônio Cultural, Identidade e Turismo - Vol. 3, Nº. 1 (2010)  
 

ARTIGO

ROTAS DA IMIGRAÇÃO ALEMÃ NA REGIÃO DO VALE DO RIO PARDO: A RIO PARDINHO-SINIMBU STRASSENDORF







1. INTRODUÇÃO

A comunicação apresenta os resultados da Pesquisa Rotas da Imigração Alemã na Região do Vale do Rio Pardo: a Rio Pardinho-Sinimbu Strassendorf. Com o apoio da Universidade de Santa Cruz do Sul, CNPq e FAPERGS. A equipe é formada pela coordenadora Doris Maria Machado de Bittencourt, pela arquiteta Naiana Maura John e pela bolsista de Iniciação científica, Kátia Koepp.
 
Para realizar o trabalho foram feitos levantamentos métricos e fotográficos das edificações e do entorno, registrando-se as tipologias e aspectos da vida quotidiana dos moradores. Foi realizado o registro oral da história das famílias e das relações de vizinhança.
 
Tem sido de fundamental importância para a pesquisa, a documentação existente no que se refere a fontes primárias. Houve contribuição dos moradores, que cederam documentos da imigração, desde Lista de Passageiros de Navios, mapeamento original da colonização, escrituras, documentação das Sociedades de Atiradores, jornais da época (alguns em alemão) traduzidos pelos moradores, fotos de família. Foi utilizado como fonte primária o De Província de São Pedro a Estado do Rio Grande do Sul- Censo do Rio Grande do Sul (1803-1950), FEE.Também foram utilizados os Mapas do Exército. Finalmente o levantamento fotográfico tem sido empregado como fonte primária para a compreensão das técnicas construtivas em enxaimel e alvenaria de pedra.
 
Os elementos pesquisados são de fundamental importância para a identidade local. Representam valores simbólicos, documentos da história do lugar. As cartas internacionais, que orientam os princípios da preservação do patrimônio cultural em diversos países do mundo, enfatizam a relação entre os monumentos e sua história. A carta de Veneza, de 1964, afirma que o monumento é inseparável da história de que é testemunho e do meio em que se situa (CURY, 2004). Esses documentos também se referem à importância de se avançar no conhecimento de fontes de informação a respeito dos bens aos quais atribuímos valor.
 
Na Rio Pardinho-Sinimbu Strassendorf a paisagem e o trajeto são ricos em símbolos e pontos de referência. Os imigrantes trouxeram o patrimônio do saber fazer, que se aliou à influência das culturas portuguesa e indígena. Ao conhecimento das técnicas aliaram-se o saber e o saber fazer, os elementos não tangíveis do Patrimônio Cultural (LEMOS, 1987). Além disso, na perspectiva de estudar os elementos que compõem o patrimônio local identificaram-se o traçado linear da colônia, os hábitos da vida quotidiana do local e as relações de vizinhança. 
 
Ao enfocar a História da Rio Pardinho-Sinimbu Strassendorf, estudar as técnicas construtivas tradicionais empregadas pelos imigrantes na construção de suas casas, a pesquisa trata de valorizar esse Patrimônio, importante para a região. Pretende também promover o patrimônio local através da produção de documentos elaborados a partir da análise dos dados.
 
Os primeiros resultados se destacam em dois artigos: o primeiro Rotas da Imigração Alemã na Região do Vale do Rio Pardo: a Rio Pardinho-Sinimbu Strassendorf, para o que foi realizado um levantamento detalhado do percurso com auxílio de GPS e o segundo: O Deutschum nas Sociedades Culturais e Recreativas da Rio Pardinho Strassendorf, que analisa o germanismo na região. Ambos farão parte das publicações.
 
1.1. A Strassendorf Rio Pardinho -Sinimbu, um Patrimônio a ser preservado
 
O presente trabalho de pesquisa tem por objetivo destacar o Patrimônio Histórico, e Cultural da Strassendorf Rio Pardinho-Sinimbu, tanto no que se refere ao Patrimônio Urbanístico quanto ao Patrimônio Arquitetônico desse distrito de Santa Cruz do Sul. O Patrimônio Arquitetônico e Urbanístico de Rio Pardinho tem valor porque está intimamente relacionado às tradições culturais do colono imigrante de origem alemã, que veio para o Sul a partir de 1824.
 
Tanto os lotes coloniais, distribuídos pelo governo da Província, ao longo da estrada, originando a aldeia com um traçado urbanístico particular, a aldeia em fita; bem como as casas representativas da cultura do imigrante, com seus diversos anexos distribuídos dentro do lote, todos eles permanecem até os dias hoje, mas estão paulatinamente sendo descaracterizados.  As casas pesquisadas foram construídas há mais de 100 anos. Outras tipologias características da região, como os Salões e as casas comerciais, também foram pesquisados.
 
Paralelamente, esta pesquisa pretende contribuir para a conscientização da população de Rio Pardinho, para a valorização e importância de seu Patrimônio Histórico, Arquitetônico e Urbanístico. O próprio ato de realizar o levantamento, de registrar já é uma contribuição e um sinônimo de preservar, ‘‘guardar para amanhã informações ligadas a relações entre elementos que não têm garantias de preservação’’. (LEMOS, 1987) 
 
O patrimônio maior é o próprio Rio Pardinho, que proporciona vida a toda à região que abrange, irrigando plantações, proporcionando água às populações ribeirinhas, servindo historicamente como meio de transporte, proporcionando alimento aos moradores da região; incentivando indústrias ligadas à pesca, bem como possibilitando uma rica vegetação no entorno.
 
 O conjunto da Rio Pardinho Strassendorf é um patrimônio histórico e artístico que necessita da conscientização de seus moradores. Sua conservação deverá transformá-lo em bem, material e imaterial, significativo como produto e testemunho de tradição cultural e histórica. Assim como, manifestação da dinâmica cultural da região, devido a sua vinculação com fatos históricos e etnográficos da colonização e imigração alemã no Sul. Sua conservação deverá evoluir para um desejo de proteção do conjunto das edificações e da própria Strassendorf como um todo.
 
Observando o tipo de relação existente entre o sítio original de implantação, em seu traçado linear, e o atual, verificaremos que são pequenas as diferenças entre os dois:
 
O traçado original evidenciava um urbanismo linear, com o mapeamento e distribuição dos lotes numerados, e com o traçado das Linhas. Traçado de agrimensor, realizado com régua sobre o papel e marcado a prumo, no terreno, desconsiderando acidentes geográficos.
 
O traçado atual é muito semelhante ao original. As pequenas diferenças ficam por conta do traçado da Estrada Velha, que foi abandonada em benefício da atual RS-471, do traçado da nova estrada, com a construção da nova ponte sobre o Rio Pardinho. Em seus aspectos gerais, a geomorfologia do terreno foi mantida, e definiu-se um critério peculiar de apropriação do espaço, que se distanciava do traçado xadrez das pequenas cidades sul-riograndenses, de influência portuguesa. Embora, diga-se de passagem, os portugueses também tiveram suas aldeias em fita.
 
1.2. O Patrimônio do saber fazer
 
O meio ambiente utilizado pelos imigrantes em sua chegada foi hostil, mas a própria terra proporcionou a semente que se transformou no pão de cada dia. A construção do forno de pão para a família foi uma das primeiras vitórias contra as dificuldades.
 
O clima e a paisagem orientaram a construção da habitação e a escolha do tipo de cultura e produção familiar a que as famílias se dedicariam.
 
No caso da Rio Pardinho-Sinimbu Strassendorf, a própria paisagem e o trajeto são ricos em símbolos e pontos de referência. Como afirma Kevin Lynch (LYNCH, 1999) os moradores possuem o mapa mental do trajeto, conhecem cada curva do caminho e lembram o local de residência de cada família. Passeiam e caminham pela estrada sentindo-se em casa. Embora, nos dias de hoje existam abusos de velocidade por parte de motoristas, que colocam em risco famílias e moradores da vizinhança. (Figs. 1, 2 e 3).
 
Os imigrantes trouxeram consigo o patrimônio do saber fazer. Mas aqui houve a influência da cultura portuguesa e indígena. Até os dias atuais muitas tribos de índios circulam pela região. Assim, ao conhecimento das técnicas aliou-se o saber, e o saber fazer. Como afirma Carlos Lemos, estes são os elementos não tangíveis do Patrimônio Cultural. (LEMOS, 1987). 
 
Quanto ao saber fazer, quase todos os imigrantes, no Sul, seguiram a profissão de sua aldeia de origem. Vieram marceneiros, pedreiros, agricultores, e colonos de outras profissões. A prática abrangia desde a capacidade para escolher a árvore nativa adequada, até a construção da moradia. O conhecimento estendia-se desde o domínio do como edificar, levantar o telhado da casa, até a capacidade de escolher qual a pedra mais adequada para construir os muros, que até hoje delimitam os lotes.
 
 
 
FIGURA 1 - Linha do Percurso da Rio Pardinho - Sinimbu Strassendorf
 
 
FIGURA 2 -  Linha do Percurso da Rio Pardinho - Sinimbu Strassendorf
 
 
FIGURA 3 - Linha do Percurso da Rio Pardinho - Sinimbu Strassendorf
 
O saber fazer transmitia-se de uma geração a outra, e manifestava-se na construção do moinho de cana, na casa em enxaimel, na cobertura de tabuinhas, no grande galpão com estrutura semelhante ao da Pomerânia - a maioria dos colonos de Rio Pardinho veio dessa região da Alemanha - ou ainda na cama do bebê e no cavalinho-balanço da criança, na cadeira de balanço e nos baús.  Muitas dessas relíquias hoje estão nos museus e são semelhantes tanto na Região de Rio Pardinho, como na região de imigração alemã, em outras locais do Brasil e até da América Latina, como, no sul do Chile, na cidadezinha de Frutillar, onde os alemães chegaram em 1852.
 
Saber fazer o tamanco à moda alemã ou ainda saber construir as estufas de fumo, fazer o plantio, secar, escolher e classificar as folhas do fumo são atividades que pertencem a um Patrimônio material e imaterial da região, que devem ser preservadas e lembradas não somente nas festas da Oktoberfest.
 
Estas festas são manifestações autênticas das comunidades de imigração alemã, e podem estar sendo exploradas por grupos que, ao mesmo tempo em que as promovem, descuidam da preservação do Patrimônio Histórico Arquitetônico e Urbanístico da região. Esses grupos manifestam desconfiança e desconhecimento no que se refere ao Patrimônio.
 
É importante que se reconheça o papel do profissional, que se dedica ao estudo do Patrimônio Histórico, Arquitetônico e Urbanístico, que seu trabalho não seja mal interpretado, e confundido com o de um profissional leviano, que ao indicar prédios de valor histórico e arquitetônico, esteja indo na contra mão dos interesses da comunidade.
Desta forma este estudo, ao enfocar a História da Rio Pardinho-Sinimbu Strassendorf, está tratando da valorização desse Patrimônio, da mesma forma que, ao estudar as técnicas construtivas tradicionais empregadas pelos imigrantes na construção de suas casas, está tratando de recuperar esse Patrimônio, tão importante.
 
Muitas casas na Rio Pardinho-Sinimbu Strassendorf têm sido demolidas pelos proprietários e têm sido substituídas por outras, que são desvinculadas da tradição e da herança cultural, tanto alemã quanto portuguesa.  As formas construtivas desconsideram a arquitetura tradicional da imigração alemã, surgem construções de má qualidade. O resultado são casas amorfas, kitsch e de mau gosto. Outro problema reside nas reformas que têm descaracterizado as antigas casas, tão bem construídas pelos primeiros colonos. O problema não trata somente do uso de materiais vulgares e de baixo custo, mas da forma como eles são empregados, quando se apresentam desvinculados da história do lugar. No caso, é importante destacar a questão do respeito às próprias origens.
 
Quando não é esse o problema, chega-se a casas rurais, na beira da estrada, em que foi levada a cidade para o rural. O problema reside no emprego de tipologias urbanas descoladas e incompatíveis com o lugar, que resultam de modismos existentes na cidade de Santa Cruz do Sul e arredores. Surge a inversão de valores, quando uma moradora do local é capaz de sentir-se envergonhada por não possuir um casarão moderno, com um grande gramado verde, povoado de anões, sapinhos e gnomos de gesso.
 
Paralelamente, as antigas casas das famílias, construídas em enxaimel são abandonadas, quando não fechadas, muitas vezes por desinteresse da família ou devido à falta de recursos para sua manutenção. Poderiam ser requalificadas e transformadas em novos espaços para atender turistas, por que não? Espaços onde os moradores pudessem expor e vender o artesanato e os produtos da região. Ou ainda pudessem transformar as antigas casas em enxaimel ou até os grandes sótãos em pequenas pousadas para turistas.
 
É preciso que a comunidade se debruce sobre esse problema, que se organize em associações ou cooperativas, que possam reverter em renda para as mulheres do lugar. Essa iniciativa poderá envolver outros membros da família. Neste aspecto pertencer a um grupo religioso evangélico ou católico poderá dar bons resultados. São as iniciativas dos grupos que obtém melhores ganhos.
 
A gastronomia é outro Patrimônio imaterial do lugar que pode ser desenvolvido. Já houve tentativas de exploração das potencialidades da região, através do turismo rural. Essas iniciativas devem ser amadurecidas e repensadas. Entretanto é fundamental buscar alternativas de aumento da renda familiar para os moradores da Strassendorf que envolvam uma nova visão para as atividades produtivas tradicionais, ou ainda outras atividades produtivas alternativas, que poderão resultar em novos usos para o Patrimônio Arquitetônico que está sendo abandonado e desvalorizado dentro do próprio lote.
 
Embora seja impossível recriar o cenário original, interressa mais do que tudo, recuperar o conjunto articulado de bens culturais, em sintonia com a sociedade atual, com trabalho e vida. Não interessa o cenário de uma Rio Pardinho Strassendorf morta, de casas desertas, esvaziada de recursos econômicos.
 
Neste momento ainda é possível querer mais do que a preservação de um cenário composto de fachadas de casas antigas e sem vida. É preciso preservar os recursos de natureza urbanística, arquitetônica envoltória, os conhecimentos populares e os modos de fazer, que contribuíram para a construção do habitat da colônia.   
 
Rio Pardinho apresenta edificações de interesse histórico, com seu partido e volumetria originais, muitos estão em precárias condições de conservação, alguns foram mutilados por intervenções que os descaracterizaram e necessitam de obras de revitalização e reciclagem.
 
Nesse sentido a preservação implica na participação de técnicos dentro de uma atividade multidisciplinar, desde arquitetos ligados à preservação do patrimônio, até especialistas na técnica de preservação e recuperação dos prédios, bem como no combate a insetos xilófagos, que estão destruindo o madeiramento das estruturas, ou ainda técnicos especialistas na preservação de materiais que estão se degradando em virtude da poluição ambiental; na estabilidade das velhas estruturas em enxaimel, ou nas estruturas de cobertura sem tesoura, que possibilitam os grandes sótãos das casas.
 
1.3. O Patrimônio do urbanismo
 
O traçado urbano linear de Rio Pardinho é um Patrimônio Ambiental do Urbanismo e é dos poucos exemplares existentes no Sul. Sua configuração mostra as relações originais existentes entre os espaços livres e as construções do período da colonização. Deve ser o primeiro elemento a preocupar estudiosos envolvidos com a questão da preservação do Patrimônio.
 
A configuração do espaço e a forma de urbanização de Rio Pardinho é resultado da política de imigração e estabelecimento da colonização no século XIX. O governo da Província estabeleceu a colonização em uma zona rural. O sistema tinha por objetivo o povoamento, a produção e exploração da terra, além das idéias de branqueamento da população. Não havia intenção de instalar os colonos em pequenas cidades ou vilas idealizadas antecipadamente.
 
Apesar de não haver essa intenção essencial, muitas colônias prosperaram, transformaram-se em povoações e mais tarde em cidades. A grande maioria surgiu de forma linear ao longo das picadas, que se transformaram em estradas. De fato, não houve povoamento espontâneo. (Fig. 4)
 
Ao longo da Strassendorf, no centro dos lotes estreitos e profundos, surgiram as casas, com as fachadas abrindo para a estrada.
 
 
FIGURA 4  - Mapa da Rio Pardinho- Sinimbu Strassendorf
 
Ainda hoje elas parecem uma gravura num cenário bucólico e idílico. (Fig. 5 e Fig. 6)
 
FIGURA 5 - Vista edificação                       FIGURA 6 - Fachada frontal
 
 
As igrejas, a subprefeitura, as casas de comércio, os salões de festas, as bailantas, até os cemitérios surgiram ao longo da Strassendorf, e de forma independente da administração municipal. O centro administrativo da picada era a povoação, onde se encontravam a casa do pastor, do professor, do escrivão, as oficinas, as lojas, a cooperativa e as escolas. Muitas se estendiam por mais de dois quilômetros. Eram as povoações–lagarta, as Strassendorf ou Stadtplatz. A Rio Pardinho Strassendorf atualmente possui cerca de 20 km.
 
O habitat tornou-se um pouco disperso ao longo da estrada, porque havia uma casa por lote, não chegando a configurar-se um adensamento completo, que se caracterizasse como um verdadeiro espaço urbano. A estrada, pólo gerador de vida da comunidade, não levava para outro lugar de interesse, senão a ela mesma.
 
Esse habitat disperso se mantém ainda hoje, e isso é importante para a preservação, embora estejam surgindo muitas ocupações irregulares.
 
1.4. A vida da Strassendorf
 
A venda teve papel importante na vida da comunidade, servindo como elemento agregador e polarizador. As escolas, em muitos casos localizavam-se em terrenos de propriedade desses estabelecimentos comerciais.
 
Da mesma forma que as vendas, os salões representaram importante papel na consolidação de identidades; como forma de estreitar laços de parentesco e vizinhança, e fortalecer o sentimento de pertencer a um grupo.  Os Salões representam aspectos peculiares na Strassendorf.
 
Ainda hoje se encontram alguns salões em funcionamento. Embora o auge de suas atividades tenha se perdido no tempo. O Salão Waechter, por exemplo, teve a maior afluência na Strassendorf. A firma era propriedade de Waechter & Wiesner, que exploravam atividades de bar, sorveteria, salão de baile, cancha de bolão, barbearia e funilaria.
 
O lote original (No 65 A) pertenceu a Luiz Keller, que construiu a primeira casa, onde instalou uma cervejaria (Fig. 7) que era muito conhecida nas redondezas. Luiz Keller, com tino comercial e senso de empreendimento, em 1895 construiu o salão de baile anexando-o à cervejaria. Parte da cervejaria existe atualmente como um porão, sob a área íntima da residência da família Waechter.  (Fig. 8)
 

 

FIGURA 7 - Salão Waechter

FIGURA 8 - Planta baixa Salão Waechter 

 

O Salão Waechter pertenceu a vários proprietários, sucessivamente: Geske, Iserhard, Ricardo Jahn, Pedro Petry, Helmuth Gressler e Walter Waechter e Walter Wiesner.
 
Walter Waechter, pai de Lorena Waechter, em 1940, casou com Marilda, filha de Helmuth Gressler, Nesse mesmo ano, instalou uma barbearia junto ao bar, onde trabalhava diariamente, até depois do jantar. Essa atividade estendeu-se até 2002.
 
Associando-se a Walter Wiesner instalaram, em 1944, um refrigerador e uma sorveteria. Nos anos 40, o Salão Waechter representava o máximo em modernidade e conforto em Rio Pardinho. Tinha a primeira sorveteria. Nos anos 50 recebeu reformas, ganhando uma cancha de bolão e um bar modernizado, que funcionava a todo vapor.
 
Diversas sociedades recreativas funcionaram no local, e algumas permanecem até hoje: Sociedade de Atiradores Boa Esperança, Sociedade de Lanceiros Boa Esperança, Sociedade de Damas Amizade, Esporte Clube Rio Pardinho e Grupo de Bolão Neve.
 
A Sociedade de Lanceiros possivelmente era inspirada nas cavalhadas da Idade Média, que representam a luta entre cavaleiros - vestidos de azul (cristãos) e vermelho (mouros) - armados de lanças e espadas. Os lanceiros procuravam acertar os alvos montados a cavalo. Recentemente o esporte entrou em decadência. Os cavalos foram substituídos por cadeiras penduradas em cabos (Fig.9 e 10). A cadeira deslizava pelo cabo, enquanto o atirador mirava um alvo fixo.
 
 
FIGURA 9  - Foto antiga                                     FIGURA 10 - Foto atual
 
Atualmente as atividades do Salão Waechter estão reduzidas, distanciando-se dos tempos áureos de seu funcionamento.
 
2. RELAÇÕES DE VIZINHANÇA
 
Em sua terra de origem, a propriedade era comunal. Na colônia, os colonos eram pequenos proprietários. Assim, não tiveram condições de recriar uma configuração espacial semelhante à de sua pátria. Durante o primeiro século, mantiveram relações e laços de vizinhança muitos fortes. Havia um grande esforço para manter os laços de identidade, estabelecendo e estreitando as relações sociais de solidariedade e família.
 
Alguns colonos tinham realizado juntos, a travessia do Atlântico. Viajaram no mesmo navio. Quando não partilharam agruras, sofrimentos e até naufrágios na travessia! A Colônia era a grande família. Cada um ajudava seu vizinho a construir a casa e arar a terra (WEIMER, 1992).  Atualmente esse sentimento perdeu-se por completo. A vida é de isolamento em relação a vizinhos.
 
3. ALINHA DO PERCURSO DA STRASSENDORF RIO PARDINHO – SINIMBU, HOJE
 
Na acepção de Kevin Lynch a Rio Pardinho Strassendorf possui uma fisionomia com importância peculiar. Além de representar aspectos de identidade de uma região de colonização alemã; por sua paisagem e arquitetura é vista e observada como um conjunto de elementos. A imagem do conjunto é produto de inúmeros construtores desde os primeiros imigrantes até seus atuais moradores e pessoas que por ela circulam. É uma imagem viva que está permanentemente em construção, e por isso não possui resultado final. A presença da natureza, e de exemplares autênticos da arquitetura da imigração torna esse ambiente rural-urbano um lugar aprazível e consistente, em termos de significado e riqueza de mundo.
 
As casas, as curvas do caminho, as árvores, a vegetação, os moradores muitas vezes circulando em antigos carros de boi são imagens de um lugar com grande potencial de beleza e significativo como tal. O caminho é rico em momentos fortes. Possui formas, que são seus pontos fortes em termos de legibilidade.
 
Todos os moradores lembram o caminho. A imagem mental que os usuários possuem do lugar é produto da sensação imediata de passagem, quando o indivíduo se movimenta pela Strassendorf, tanto quanto da lembrança de experiências passadas. Nesse sentido, a Strassendorf é clara e legível, nela é fácil encontrar a casa de um amigo, a igreja ou o cemitério. Os moradores familiarizados com a estrada possuem uma imagem mental de organização e identidade através de uma longa familiaridade. Não havia estereótipos anteriores.
 
A imagem ambiental do lugar possui estrutura e identidade, na medida em que é facilmente identificável e reconhecida. As casas e os lugares são reconhecidos como entidades distintas, não são identificadas por números, não existem placas numeradas, nos lotes para identificar endereços. As casas são reconhecidas pelos sobrenomes das famílias, os Gressler, os Vojahn, os Jandrey, etc. O reconhecimento visual de cada uma está relacionado ao seu significado enquanto casa. Em nossa pesquisa optamos por denominá-las pelos nomes dos primeiros colonos proprietários.
 
Ponte Rio Pardinho, com sua pequena torre possui uma imagem e silhueta que está cristalizada como símbolo da antiga colônia. Para que o percurso da Strassendorf seja reconhecido e compreendido no sentido da preservação é importante que essas imagens sejam claras e legíveis, e elas de fato confirmam esta assertiva.
 
Muitos trechos da estrada possuem um forte sentido de imaginabilidade porque possuem uma grande possibilidade de evocar a sua própria imagem no observador, quem não lembra no meio da paisagem verde, a Casa Jandrey, a Casa Urban (Meinhardt), a Casa Jahn (Diehl), o Casarão Zuther (Gressler) ou ainda a silhueta da Igreja Evangélica? Assim, com o passar do tempo, Rio Pardinho é apreendida como um modelo de continuidade com partes distintas interligadas. (LYNCH, 1999)
 
Considerando as reflexões acima, foi estudada a linha do percurso da Strassendorf, com seus pontos e lugares de identificação, com suas características de espaço aberto, com sua vegetação e casas em ambos os lados da estrada, com o sentido único do movimento na estrada, como se fossemos ao mesmo tempo, atores e observadores do movimento na Strassendorf.
 
A seqüência ou visão serial da estrada foi estudada diversas vezes. Primeiro foi realizado um mapeamento com auxílio de GPS. Com esses dados foi criado o mapa da Strassendorf (Fig. 11). Após, foi montada uma visão serial do percurso com a seqüência fotográfica que inclui os principais objetos arquitetônicos pesquisados e elementos da Strassendorf. (Figs. 1, 2 e 3) A realização de sucessivos percursos pela  Strassendorf, o auxílio de moradores do local, dados cartográficos e bibliográficos foram importantes para montar a descrição a seguir:
 
- O percurso para o desenvolvimento da pesquisa foi iniciado na Av. Independência, onde está localizada a Casa Roweder, à esquerda e distante da rua, em direção ao entroncamento que leva a Rio Pardinho.
 
- No cruzamento das duas estradas, BR-286 e RS-471, junto à entrada de Rio Pardinho, encontra-se o antigo Sanatório Kaempf, ou Sanatório Vida Nova, estabelecimento hidroterápico, no lado direito da estrada. 
 
- Prosseguindo à esquerda encontra-se o empreendimento Distribuidor de Alimentos Young.
 
- Adiante, à direita e perpendicular à estrada, como todas as linhas vê-se a Linha Travessa, a “Querpikade”, que corresponde à parte das terras, que, em 1852, Kleudgen recebeu do governo provincial como pagamento por serviços em prol da vinda de colonos alemães para Rio Pardinho. (CENTENÁRIO, 19....)
 
- A seguir, à esquerda, encontra-se a Linha Borges de Medeiros, que leva à Ponte Rio Pardinho. Antes de chegar em Ponte Rio Pardinho, há um pequeno cemitério. Atravessando a antiga ponte metálica adentra-se em Ponte Rio Pardinho com sua pequena Igreja Evangélica e o antigo casario. Com o Rio Pardinho à direita, o viajante passa por baixo da Ponte Nova, voltando a tomar a RS-471. Ali bem próximo, encontra-se a antiga Casa Bailanta, que era utilizada como paradouro para os alemães que desciam com o fumo. Este é um caminho alternativo.
 
- Na RS-471, pode-se ultrapassar a Linha Borges de Medeiros e continuar em frente. À  esquerda, em área plana e distante da estrada, destaca-se contra o fundo verde, a Casa Jandrey, um dos exemplares de arquitetura de pedra, com  varanda e jardim na frente. O lote original foi vendido ao colono João Jandrey, natural da Pomerânia, que imigrou em 1851.
 
- Adiante, antes da curva à esquerda, está a Linha Sete de Setembro e a placa indicativa, Fingerhut. Nesse caminho encontra-se a Destilaria Fingerhut, que fabrica cachaça. O empreendimento é de propriedade do casal Ulrich Lederer e Lizete Hollermann, descendentes de austríacos.  É ponto turístico da região. O processo de fabricação da cachaça é artesanal, o produto é envelhecido em barris de carvalho. O nome Fingerhut (significa chapéu de dedo, dedal para costureiras), antigo nome da Linha Sete de Setembro.
 
- Da estrada visualiza-se a torre da pequena Igreja Evangélica e o casario do povoado de Ponte Rio Pardinho.
 
- Passa-se a seguir, pela Ponte Nova sobre o Rio Pardinho, que foi construída em 1953, com um vão de 115 m. e capacidade de 45 t.
 
- Do lado esquerdo vê-se a Sociedade Hídrica Ponte Rio Pardinho, responsável pelo abastecimento de água de Rio Pardinho.
 
- No lado direto a Casa Trarbach.
 
- No lado esquerdo o Açougue Bom Corte.
 
- No lado direito a Marcenaria Martol.
 
-Em parte plana da estrada, e distante desta, à esquerda, vê-se a Casa Urban (Meinhardt), o Lote de No 31 B, que teve como primeiro proprietário, Carlos Grawunder, natural da Silésia, que chegou em 1853. O imigrante Otto Urban, natural da Silésia, foi o segundo proprietário. Chegou a Rio Pardinho em 1854, tendo viajado no navio Formosa. A casa, atualmente, pertence à família Meinhardt. No local residem Rejane Meinhardt, seus filhos e sua tia Alice. A mãe de Rejane chamava-se Herta Heitling Meinhardt, filha da viúva Elly Smidt Meinhardt, que era poetisa. Essa parte da estrada é das mais belas, com seu conjunto de pinheiros à direita.
 
- A seguir encontram-se outras duas, das três casas gêmeas: Trindade e Pohl (Seidel). A primeira pertenceu originalmente a Germano Hentschke, natural da Silésia, que chegou em 1852, no navio Fortuna. Era o Lote No 37.
 
- A segunda, Casa Pohl (Seidel) era o Lote No 39 e pertenceu a Roberto Pohl, natural da Pomerânia, que aportou em 1872, pelo Eletric. O proprietário anterior era o sapateiro Ricardo Weber, que chegou em 24 de novembro de 1852.
 
- Perpendicular à estrada vê-se a Linha Fich, cujo nome talvez se deva ao proprietário do lote No 43, Henrique Fich, que chegou em 1852.
 
- No lado esquerdo encontra-se a antiga Casa Gressler, que pertenceu a Rudolf Gressler, natural da Saxônia. Rudolf chegou em 1852 pelo navio Marianne e se estabeleceu no lote No 41. A casa foi levantada e pesquisada pelo prof. Gunter Weimer (WEIMER, 2005). Foi demolida por seus proprietários que destruíram um verdadeiro patrimônio da região de imigração alemã.
 
- No lado esquerdo e antes da curva, em local baixo e úmido encontra-se a Casa Berger (Vojahn), que pertence à tipologia: casa de alvenaria de pedra com solução simétrica de fachada e escadaria na porta central de acesso. Destaca-se a vegetação do entorno, com plantas e jardins cuidados pelos proprietários. O lote pertenceu a Carl Berger (não possui numeração no mapa). - Descendo o morro, avista-se o coração de Rio Pardinho, casa por casa, sobressaindo a chaminé da antiga Cooperativa Agrícola Rio Pardinho
 
- Do lado esquerdo está a Casa Jahn (Diehl). O lote no 53 (CENTENÁRIO, 19....) foi vendido, originalmente, a Johann Jahn, primeiro proprietário da atual Casa Diehl.  A casa foi construída em 1870 pela família Jahn. Quando o casal Johann Jahn e Augusta Jahn construíram a casa, seus filhos já eram adultos. Um deles, Guilherme, casou com Ernestina Rieck e tiveram uma filha chamada Irena.  A jovem casou com Carlos Froeming, irmão do avô de Marlise Gertrudes Diehl, uma das atuais proprietárias. Carlos e Irena não tiveram filhos. Quando ficaram idosos e doentes foram cuidados pelos pais de Hedy Íris, que assumiram a propriedade, em 1949. A Casa Jahn pertence à tipologia das casas de pedra com porta central e duas janelas laterais, suas aberturas são arqueadas, mas não são em arco pleno. O terreno é baixo e plano; eleva-se na parte posterior, onde há uma rica vegetação e pomar, em que a proprietária Marlise Diehl emprega uma agricultura orgânica e de forma sustentável.
 
 
FIGURA 11 - Mapa da Rio Pardinho Strassendorf
 
-Logo a seguir há um chalé onde são comercializados os produtos da região, pães, cucas, doces e tortas.
 
Um dos pontos de maior destaque na estrada é o Casarão Zuther (Gressler), Lote No 55, antiga propriedade de Ricardo Zuther, natural da Pomerânia, chegou em 1852 pelo navio Marianne.(WEIMER, 2005)
 
- À esquerda da Casa Diehl encontra-se o Mercado do novo Frigorífico Schender.
 
- À direita vê-se a chaminé do antigo Frigorífico de Rio Pardinho.
 
- O prédio do Frigorífico é a atual subprefeitura e foi construído em 1926.
 
- A seguir encontra-se a Travessa Andreas, do lado esquerdo.
 
- Mecânica J. B. e Auto Elétrica, à direita.
 
- Parada e estacionamento de ônibusà esquerda.
 
- Escola Christiano Smidtà esquerda.
 
- Um pouco adiante, no Lote No 63, à direita da estrada encontram-se as duas casas pertencentes à família Becker, à Marise Becker, a quem entrevistamos. O primeiro proprietário foi Carlos Spode, que chegou em 1º. de dezembro de 1852. Seu filho, Guilherme Otto Spode herdou a propriedade. Foi realizado o levantamento da Casa Spode (Becker), em enxaimel.
 
- Entrada à direita para Travessa Radtke. Logo a seguir, à esquerda, há um Posto da Brigada Militar.
 
- Passando o Posto à esquerda, encontra-se o campo do Futebol Clube Rio Pardinho.
 
- A área entre a Casa Diehl, incluindo o Salão Waechter até o trevo com saída para Linha D. Josefa é bastante densa formando efetivamente o coração de Rio Pardinho.  Após a Casa Spode (Becker), à direita encontra-se um belo exemplar de casa em enxaimel pertencente à Krüger.
 
- Quase em frente está o Salão Waechter. O primeiro proprietário foi Miguel Kirst , que imigrou em 1853 e abandonou o lote em 1863. Este foi revendido para Francisco Keller, natural da Pomerânia, que chegou a Rio Pardinho em 1859, tendo viajado no navio Paquete Hamburgo.
 
- Adiante se encontra o trevo indicando a Travessa D. Josefa à esquerda e à direita, Sinimbu. No local está o Monumento ao Imigrante Alemão.
 
- À esquerda Igreja Evangélica e Centro Comunitário.
 
- À esquerda Casa Panke, com seus anexos e Balneário Panke.
 
- A seguir, do lado esquerdo da estrada encontra-se a Casa Gottlieb (Fulber), pertencente a Lírio Fulber, objeto do levantamento.
 
-  Mais adiante, Linha Zingler, Travessa Bauermann.
 
- Escola Particular Centenário.
 
- Logo a seguir, à esquerda, encontra-se o Cemitério Centenário.
 
- Casa Bernhard, de pedras pertencente a Ottmar Benhard.
 
- Restaurante Verde Vale.
 
- À esquerda, Casa HB Bailante, 1935.
 
- Linha Moltz.
 
- A seguir, à esquerda, casa de pedras, com janelas verdes na mesma tipologia da Casa Jahn.
 
- À esquerda, há uma casa característica dos anos 30, com jardim fronteiro, a Casa Erhard Henstschke.
 
- A seguir a Linha Nove Colônias e a divisa entre os municípios de Santa Cruz do Sul e Sinimbu.
 
- À esquerda está localizada a Casa Siátrica.
 
- À esquerda Serralheria Wiesel.
 
- BKW Tabacos.
 
- Salão Regert
 
- A seguir a casa pertencente a T. P. em 1922, e a entrada do Sítio Coqueirais.
 
- Linha Inverno.
 
- Do lado direito a Casa Glass (Spies), em enxaimel, objeto desta pesquisa.
 
- A seguir, as indicações de Linha Verão, Funilaria Becker, Móveis Brandt, Linha S. João, Rio Pequeno, Linha Rio Grande, Gramado Xavier, Boqueirão do Leão, Ponte, Brigada Militar, Igreja, Posto Ipiranga, Rua Gen. Flores da Cunha e Igreja Católica de Sinimbu. Neste ponto considera-se completo o trajeto da Strassendorf Rio Pardinho – Sinimbu, uma vez que se atinge à área urbana de Sinimbu.
 
O levantamento do percurso além dos dados específicos permitiu a visão serial da Strassendorf, ou seja, quando o usuário movimenta-se em automóvel, em velocidade baixa e constante, descortina-se ante ele uma paisagem viva e mutante. Como regra geral o espaço é percebido através de séries fragmentadas, ou revelações fragmentadas. Essa visão ótica que se descortina é parcialmente fortuita, no caso resultou basicamente do loteamento determinado para a colonização, dos lotes estreitos e profundos, que resultaram na aldeia em fita. Diante do observador surgem as inúmeras seqüências de espaço, como uma cadeia acidental de acontecimentos encadeados, que possuem significado.
 
Em nosso estudo a visão serial ficou plasmada na seqüência das fotos denominada Linha do Percurso, que deve ser lida da esquerda para a direita. É como os fotogramas do cinema, cada foto da estrada corresponderia a um fotograma do filme cinematográfico. A seqüência dos 24 fotogramas nos dá a animação.  Embora não tenhamos esses 24 quadros, tiramos partido dessa seqüência de planos cinematográficos.
 
Cada momento do percurso é surpreendido por uma série de contrastes repentinos, que causam impacto na visão, dão vida ao plano e abruptamente mudam o plano visual da paisagem. O resultado é a seqüência de um percurso extremamente evocativo.(CULLEN, 1981).
 
Se o planejador considerar a visão serial real existente como parte de uma cadeia plena de significados, como uma trama da arte de relação, terá a sua disposição uma ferramenta importante com que poderá moldar o espaço da Strassendorf, tornando-o mais significativo, em seus pontos mortos e em seus vazios desprovidos de significado. Emergindo daí o outro lado da visão ótica: a visão serial emergente, que se desprende da mesmice e do lugar comum. Esse processo de manipulação poderá transformar fatos insignificantes em situações de grande beleza, significado e intensidade emocional. (CULLEN, 1981).
 
4. PROPOSTAS DE AÇÃO
 
Como se afirmou anteriormente, existem propostas de atuação no sentido da preservação do Patrimônio Histórico da Rio Pardinho–Sinimbu Strassendorf, que abrangem um leque de ações, tais como:
 
- Organizar a população em Cooperativas para incentivar ações de grupo;
 
- Valorizar o artesanato e os produtos da região;
 
- Criar novos produtos capazes de incentivar o turismo;
 
- Criar novas formas de produção que atendam à questão da sustentabilidade;
 
- Adequar espaços das antigas casas em enxaimel para novos usos, com objetivos de rentabilidade econômica;
 
- Estabelecer alianças com instituições de peso dentro do município de Santa Cruz, como a própria Universidade de Santa Cruz do Sul;
 
- Criar roteiros turísticos com a participação efetiva de moradores da Strassendorf. Isto está sendo concretizado e poderá ser ampliado;
 
- Resgatar antigas profissões que hoje desapareceram. O revigoramento de antigas profissões teria por objetivo formar pessoas capazes de trabalhar com as antigas técnicas construtivas empregadas pelos colonos alemães, para restaurar as casas da Strassendorf, que necessitam de recuperação. Não somente as casas, mas os galpões anexos que    estão em péssimo estado de conservação e são um exemplo de boa arquitetura;
 
- Buscar informações sobre os programas governamentais que existem na área de revitalização de bens do patrimônio histórico nacional, que propiciariam uma otimização e adequação dos espaços públicos da Strassendorf Rio Pardinho- Sinimbu e de suas  edificações,  em benefício da comunidade;
 
- Estabelecer propostas capazes de obter apoio de órgãos que financiam projetos de restauração para os proprietários das casas na Strassendorf Rio Pardinho-Sinimbu, enfatizando que o conjunto da Strassendorf é  um bem  do patrimônio histórico e  que a proposta  contribui para a melhoria e adequação dos espaços públicos da Strassendorf;
 
- Reservar especial atenção para a elaboração de projetos que tratem do aspecto urbanístico da Strassendorf Rio Pardinho–Sinimbu, que possam ser atendidos por fontes financeiras governamentais que atendem às modalidades de adequação urbana e revitalização de bens do patrimônio histórico. Aliando desta forma, os interesses da comunidade às iniciativas governamentais, que possuem programas de revitalização de bens do patrimônio histórico, na linha da preservação da identidade cultural e dinamismo econômico, no âmbito da idéia de sustentabilidade;          
    
Finalmente, as ações de revitalização precisariam da orientação de técnicos ligados ao Patrimônio Histórico.
 
O resultado seria a valorização do Patrimônio Histórico da Rio Pardinho-Strassendorf e contribuiria para um movimento mais amplo, de valorização de outras áreas e municípios pertencentes à Região do Vale do Rio Pardo.
 
Iniciativas dessa ordem, por parte de habitantes e proprietários da Strassendorf, reverteriam em benefício da comunidade, aumentariam a auto-estima dos moradores, a renda familiar, e resultariam em grande melhoria para o subdistrito de Rio Pardinho como um todo.  
 
5. CONCLUSÃO
 
O presente trabalho de pesquisa apresentará seus resultados em publicação em CDRom e livro, debruçando-se sobre dois  aspectos:
 
1. O aspecto urbanístico que estuda a organização das colônias alemãs em fita, ao longo de uma estrada.
 
2. Apesquisa sobre o espaço arquitetônico de onze casas relacionadas à história das famílias; valorizando a história do quotidiano e as fontes orais. Destacando-se a história da casa e da família, tipologias arquitetônicas, casas em alvenaria de pedra e casas em enxaimel, soluções de partido geral, técnicas construtivas, destacando-se particularmente as soluções de cobertura construídas pelos imigrantes alemães.
 
Concluindo, constatou-se aspectos recorrentes e homogêneos na arquitetura da Rio Pardinho Strassendorf, tanto nas casas em enxaimel, como nas casas em alvenaria de pedra, o que contribuiu para conferir ao conjunto um caráter de homogeneidade e unidade. Esse caráter unitário e homogêneo deve-se às semelhanças entre as soluções de partido geral, planta-baixa, uso de materiais construtivos, mobiliário, soluções específicas de técnicas construtivas, relacionadas à cultura do imigrante; e questões estéticas buscadas pelos colonos, nas soluções de fachada.
 
As tipologias arquitetônicas se repetem, são características da região. No plano urbanístico esse mesmo caráter unitário e homogêneo está relacionado à forma de ocupação e de apropriação do lote, não somente quanto à implantação da casa, mas quanto à forma de cultivo do solo.
 
Portanto, o conjunto urbanístico e arquitetônico da Strassendorf caracteriza-se como um lugar que deve ser preservado e valorizado como patrimônio histórico e cultural não apenas sul riograndense, mas nacional.  
 
AGRADECIMENTOS
 
A equipe de pesquisa agradece aos moradores da Strassendorf que receberam o grupo com tanta hospitalidade e disponibilidade, à equipe de apoio da Universidade de Santa Cruz do Sul, à própria UNISC, ao Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento (CNPq) e à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (FAPERGS) que tornaram possível este trabalho.  
 
REFERENCIAS
 
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CURY, Isabelle (organizadora). Cartas Patrimoniais. Rio de Janeiro: IPHAN, 3ª ed. 2004.
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WEIMER. ( Org. ) Urbanismo no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: UFRGS, 1992.
 
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